Obra de rigor e fino recorte literário, Raul Não Morreu demonstra, acima de tudo, como se pode enganar, ao longo de um mês inteirinho, a entidade patronal durante as horas de serviço. Quanto aos seus autores — jornalistas de créditos firmados e confirmados em Queluz e arredores — Frederico Valarinho, Nuno Farinha e Rogério Morais revelam-se e revelam nesta pérola da escrita nacional o seu pendor e queda — com muito espaço para cair — no âmbito da literatura clássica, para além de um profundíssimo conhecimento da alma e da psicologia canina (podia ser g'ande, mas não é o caso).
Capítulo após capítulo, a estria assume um crescendo emocionante, vibrante, contagiante, arrepiante e até mesmo, poder-se-á dizer, desgastante. As catrísticas das personagens, finamente delineadas e cada uma com uma fisolofia de vida própria, são tão vívidas e reais que tal só deverá ter sido possível de conseguir mercê do muito apuro, pesquisa e baldas ao trabalho destes três jovens talentos.
Honrada por prefaciar esta obra-prima, aconselho com veemência a todos os leitores que atentem nos permonores, para bem perceberem a intriga. Raul Não Morreu, pode já ser considerado um clássico, um forte candidato ao prémio Pulitzer e um marco na História Nacional. A ler e não perder.
11 de Novembro de 1996. Segunda-feira. Queluz tinha amanhecido envolta numa névoa leitosa. Pouco a pouco, já bem depois da hora de entrada aprazada, os trabalhadores da Editora Empada começam a chegar ao local de trabalho. Cada um demanda a respectiva redacção, preparando-se para mais um dia de ardorosa (?) labuta. Na revista Nova Mente a tensão é grande. É dia de fecho e, para variar, há muito trabalho a fazer.
O telefone toca, mas ninguém liga. Está toda a gente habituada à estridente campainha. A chefe de redacção, Dulce Lapela, atende e, durante alguns segundos, ouve atentamente o que lhe dizem. Alguns monossílabos são a única indicação de que há alguém do outro lado da linha. Quando desliga fica alguns instantes em silêncio. Depois, ainda chocada pelo que lhe tinham dito pelo telefone, atira para o ar:
— Parem o que estão a fazer!
Os nove elementos da redacção continuam a trabalhar, julgando tratar-se de mais uma brincadeira, daquelas em que a chefe é pródiga. Dulce Lapela volta a falar, agora com uma voz estridente, que demonstra bem o estado de nervos em que está.
— Parem todos, porra! Isto é muito importante!
O silêncio instala-se, pesando sobre todos os presentes. Os jornalistas olham uns para os outros, pouco habituados a que, na Nova Mente, haja alguém que fale a sério. A chefe pigarreia, para aclarar a garganta, e diz o que tem a dizer:
— Vamos ter que mudar completamente esta edição. Uma agência acabou de oferecer, por um preço módico, o exclusivo mundial de umas imagens da princesa Tiana a ter relações sexuais com o amante. O patrão já disse que temos de fazer uma capa nova e pelo menos dez páginas com esta reportagem. Entretanto, já estamos a falar com um jornalista inglês, que talvez nos garanta declarações privadas que a princesa fez. Os primeiros slides chegam daqui a pouco e, se de facto houver essa entrevista, a agência vem cá trazê-la cerca das dez da noite. Preciso, portanto, de gente para fazer serão...
Isto significava trabalho. Algo que os jornalistas da Nova Mente não apreciavam muito, diga-se de passagem. Lurdes Posta é a primeira a mostrar não poder colaborar neste serviço.
— Tenho de sair daqui a pouco porque marquei uma entrevista com o cão do Patuscus — afirma, peremptoriamente.
Também Lúcia Doer-te, a representante brasileira, estava impossibilitada de fazer o que quer que fosse.
— Ao abrigo da lei 124.836-B, de Janeiro de 1904, um cidadão brasileiro não pode relacionar-se, de forma directa ou indirecta, com qualquer tipo de acção erótica e/ou pornográfica. Por isso, não vou poder ajudar, não...
A bola parecia ir passando de mão em mão. Rogério Pau não perdeu a oportunidade.
— Chefe, não se esqueça de que tenho entre mãos aquele documento sobre a influência da escrita etrusca nas sociedades nómadas pós-modernas da Europa Central e suas repercussões na queda do Muro de Berlim. Está a dar-me imenso trabalho!
E as desculpas continuavam. Conceição Carrinho sentia uma picada nos deltóides especialmente quando escrevia o T maiúsculo, pelo que não poderia escrever a palavra Tiana sem um grande sofrimento. Nuno Fermento, por sua vez, estava a fazer o levantamento de todos os golos sofridos pelo guarda-redes Cancelinha ao longo de uma brilhante carreira, que podia vir a dar uma edição especial de um novo jornal desportivo (o “Bolo") que o patrão pensava relançar brevemente.
Só Júlia Cantos não se desculpou. De facto, entretida a arranjar as unhas, a encantadora jovem não ouviu absolutamente nada da conversa. É caso para dizer que não se escapou a um dramático destino por uma unha negra! Mas disso falaremos lá mais para a frente. O seu silêncio foi entendido como um “quem cala consente” por parte da chefe de redacção.
— Muito bem. Júlia, vais ficar com este trabalho. Fazes já as dez páginas e, depois, ficas à espera de mais novidades. Se o outro material vier, tens de fazer uma noitada para acabar tudo antes das quatro da manhã...
Isto já Júlia Cantos ouviu, mas mesmo assim, só em parte.
— Quatro da manhã de quando, chefe?
— De amanhã, claro! Não ouviste o que eu disse?
— Mais ou menos, mais ou menos. Mas,... Bem,... Sabe, chefe, hoje tenho uma festa do Bisarma, não vou poder ficar!
— Vais, vais! O jornalismo é uma cátedra e não se compadece dessas coisas. Os teus colegas têm motivos palpáveis para se escusarem, mas tu não. Vais ter mesmo que fazer isto. A Beatriz Andor dá-te uma ajuda a fazer eventuais contactos e, quando acabares, a Sundays Cross revê o texto.
Na redacção ouviu-se um suspiro de alívio, que não passou em claro à responsável pela Nova Mente.
— Pois, mas se o outro material chegar, e para mostrar solidariedade para com a Júlia, toda a redacção vai fazer este serão. Assim até aproveitam para adiantar os trabalhos que têm entre mãos.
O suspiro transformou-se num murmúrio de protesto, mas que ninguém teve coragem de transformar em voz alta.
À hora de almoço, o sucedido era motivo de conversa entre os dez membros da redacção da Nova Mente. Todos mostravam à chefe de redacção o seu descontentamento por uma tão prepotente atitude, mas ela não se comoveu.
— Serviço é serviço, conhaque é conhaque. Quando é para brincar, brinco, mas quando é para trabalhar, exijo que vocês trabalhem.
E a tarde começou com mau ambiente na Nova Mente. Todos trabalhavam devagar e iam muitas vezes à casa de banho, numa espécie de protesto mudo. A única excepção era Júlia Cantos, que queria despachar o seu serviço rapidamente, ao mesmo tempo que rezava para que o resto do material nunca chegasse.
Às nove e meia da noite a chefe foi jantar, com o Herman Joselito, delegando em Júlia a tarefa de escolher as fotografias, caso a rapariga da agência viesse antes de ela voltar. E seria isso mesmo que aconteceria. Faltavam cinco minutos para as dez quando o recepcionista avisou da chegada do novo material. A rapariga foi mandada para a sala 10, onde daí a pouco iria ter Júlia Cantos.
Afinal, as orações de Júlia não tinham dado qualquer resultado. Centenas de slides alinhavam-se sobre a mesa, juntamente com uma fabulosa entrevista. Júlia ficou desesperada.
— Alguém sabe que isto chegou? — perguntou à rapariga.
— Não. Eu quis manter isto no máximo sigilo e, por isso, vim para cá logo que o material veio de Inglaterra, sem dizer nada a ninguém.
Um sorriso sádico perpassou pelo rosto de Júlia Cantos, mas a sua interlocutora não deu por isso.
— Vou chamar uma colega minha para me ajudar a escolher as fotos. Entretanto, quer tomar alguma coisa? — ofereceu.
— Aceitava um café...
A máquina do café foi, portanto, a primeira paragem de Júlia ao sair da sala 10. O café foi fornecido como habitualmente e Júlia preparava-se para o levar à rapariga quando se cruzou com Nuno Fermento.
— Então, sempre chegou novo material? — perguntou Nuno.
Com um ar contristado, Júlia acenou que sim com a cabeça.
— Posso ir vê-las?
— Podes, respondeu Júlia. E, já agora, leva o café à miúda...
Pelo caminho, Nuno encontrou Rogério Pau, que o procurava para ir ao telefone. Uma chamada urgente, garantiu. Nuno passou o café a Rogério, pedindo-lhe que fizesse a entrega. Mas o café ainda mudaria várias vezes de mãos antes de chegar ao seu destino. Aflito para ir à casa de banho, Rogério passou a pasta a Lurdes Posta que, vendo na redacção da Mania umas belas fotografias da lingerie, entregou o café a Conceição Carrinho. Esta, começando a sentir dores no deltóide por carregar tanto peso, passou-o a Beatriz Andor. Foi esta a altura escolhida por Lúcia Doer-te para pedir que a secretária de redacção fosse buscar os faxes, motivo pelo qual a brasileira se viu com o café na mão. Sundays Cross, avisada por Júlia da chegada do material e querendo ajudar a escolher, ofereceu-se então para levar o café que, finalmente, entregou completamente frio à rapariga.
Regressada do jantar, Dulce Lapela entrou nesta altura. Viu a rapariga com Sundays Cross na sala 10 e, mandando embora a sua subordinada, começou a trabalhar.
— Enquanto escolhe o material, posso ir à casa de banho? — perguntou a jovem.
— Com certeza, com certeza.
E Dulce Lapela ficou sozinha na sala, com o copo de café à frente. Satisfeita a sua necessidade, a rapariga regressou. Enquanto Dulce terminava a escolha do material, a miúda bebia, com algum sacrifício, o seu café gelado.
— Pronto, já está. São cinquenta slides e, com este texto, podemos fazer mais vinte páginas magníficas. Agora aguarde aqui um bocadinho que a editora já vem para lhe assinar a requisição.
Foram cinco minutos. Quando Isabel Riachos entrou na sala 10 para cumprir aquele "pro-forma", a rapariga estava morta na cadeira, um esgar de dor na face jovem e um copo de plástico vazio no chão. Todo o material que trazia tinha desaparecido. A editora grita e desmaia. Toda a gente que permanecia no edifício da Empada acorreu. Chamou-se a polícia, que chegaria pouco depois. O patrão abria uma excepção e interrompia o seu repouso, ante a gravidade da situação. A primeira pessoa com quem quis falar foi com Dulce Lapela.
A chefe de redacção da Nova Mente contou-lhe tudo o que se passou. Com a frieza dos grandes empresários, o patrão decidiu o que era mais importante.
— Está morta. Já não podemos fazer nada por ela. Agora o que interessa é fechar a próxima edição. Mostre-me lá o material que escolheu...
Dulce acercou-se da sua secretária e começou a procurar. Afastou papéis, abriu pastas. Até que teve que confessar:
— Desapareceu tudo!
A azáfama na Empada era grande, no dia seguinte. Por um lado, a polícia investigava, colhia depoimentos e procurava provas, tentando esclarecer a morte. Por outro, o patrão queria saber o que se tinha passado com o material da Princesa Tiana.
— É inadmissível, já não se pode confiar em ninguém! — gritava, colérico — Alguém vai ter que pagar pelo que se passou. Vou instaurar um processo para apurar responsabilidades. Alguém se propõe a investigar?
Lurdes Gordinho, chefe da redacção da Mulher Cisterna, quis falar:
— Eu acho...
— A senhora não acha nada! Uma mulher não serve para este trabalho. Quero um homem! — interrompeu, olhando para os dois homens presentes.
Alberto Sorrindo, chefe de redacção da Mete Dias afirmou não ter perfil para esse trabalho, enquanto que Bernardo Grito e Punha estava impossibilitado de colaborar pelo facto de estar a funcionar como conselheiro sentimental de Catarina Roubado.
— Muito bem, muito bem — retorquiu o patrão — Já sei em quem posso confiar. Uma pessoa que tem estado do meu lado desde a primeira hora.
E, pegando no telefone, ligou para a secretária, Teresa Rainhas.
— Teresa, mande entrar o senhor Patins!
O senhor Patins, motorista da casa, não demorou três minutos a chegar junto do patrão.
— Faça favor de dizer, senhor. Estou às suas ordens.
— Muito bem. Morreu uma mulher nas nossas instalações e eu preciso de saber o que se passou. Para além disso, quero também saber onde estão os slides que desapareceram. Era material importantíssimo, senhor Patins... — disse o patrão, desesperado.
— Pode estar descansado. Prometo descobrir tudo em pouco tempo — prometeu o senhor Patins.
— Confio em si. A partir de agora, é o senhor que vai passar a gerir o seu horário de trabalho. Faça o que quiser, como quiser. Quando tiver novidades, fale comigo.
O senhor Patins — agora promovido a detective — via-se, assim, a braços com a mais importante missão da sua carreira. Não era fácil, mas a vontade de pôr tudo em pratos limpos fazia-o pensar numa solução rápida para o caso. O puzzle era complicado. E grande. As peças eram muitas e as primeiras suspeitas recaíram imediatamente num dos elementos efectivos da Nova Mente.
Patins não perdeu tempo. As informações eram escassas, mas o homem da confiança do patrão sabia dar a volta ao texto. Adquiriu uma barba postiça (despesa que, já sabia, não seria aceite pelo patronato) e pintou a sua Vespa de negro, inteligentes tentativas de passar despercebido junto do(s) assassino(s).
— Um assassino, por muito esperto que seja, acaba sempre por se descair, e é mais normal que isso aconteça junto de um estranho — explicava o senhor Patins a Isabel Riachos, numa tentativa de a fazer assinar a nota de despesas.
Debalde. A editora recusou, dizendo que na factura faltava o número do contribuinte do sobrinho-neto do estafeta-detective, que o ajudara a pintar o veículo de duas rodas.
Enquanto isso, o patrão recebia uma chamada da Polícia Judiciária.
— “Boa tarde, fala o inspector Cerejeira, da Judiciária. Gostava de saber se quer receber o resultado da autópsia”.
O patrão esteve algum tempo a pensar.
— Autópsia, autópsia... Bem, é melhor mandar ao cuidado do senhor Frederico Colarinho, que é o homem que nos trata de tudo o que tem que ver com automóveis. E não vale a pena tentar falar com ele pelo telefone, porque nunca cá está! — respondeu.
Desta forma, passada uma semana, enquanto Patins metia mãos (e rodas) à investigação, Frederico Colarinho recebia um relatório curioso sobre a autópsia da desafortunada rapariga, assinado pelo grande médico-legista português, o doutor Solarengo.
“(...) no estômago da vítima foram encontrados, para além dos restos do jantar e de um café não digerido, vestígios de estricnina, de heroína, de cocaína, de veneno para escaravelhos, de veneno para ratos, de DDT, de toner para fotocopiadoras, de Sonasol Verde, de lixívia, de amoníaco e de Harpic líquido superconcentrado. Qualquer das doses era letal, sendo a sua mistura extremamente tóxica (...)”, podia ler-se.
De boa fé, o homem dos automóveis, em lugar de falar com alguém com responsabilidades dentro da Empada (como o senhor Patins, por exemplo), trocou impressões sobre a autópsia com dois dos seus amigos da Nova Mente, Nuno Fermento e Rogério Pau.
— É tudo muito estranho. Se qualquer das doses era letal, por que é que o assassino terá misturado dez substâncias diferentes? — perguntava Frederico Colarinho.
— Se calhar era um psicopata! — sugeriu Rogério Pau.
— Ou então achava que assim era mais difícil localizá-lo... — acrescentou Nuno Fermento.
Fosse como fosse, o certo é que Colarinho entregou o relatório da autópsia aos seus dois colegas, que lhe prometeram levá-lo direitinho a Dulce Lapela, que saberia certamente o que fazer com ele. Livre desse encargo, partiu de consciência tranquila para o Botswana, onde uma apresentação da Ssangyong o prendeu durante um mês e meio.
17 de Dezembro. Terça-feira. Tinham passado quase cinco semana sobre o crime. As conversas na redacção da Nova Mente iam todas dar ao mesmo. Ainda se comentava o assunto e faziam-se conjecturas atrás de conjecturas.
— Que coisa estranha. Já dei mil e uma voltas à cabeça e não consigo perceber o que se passou. Meus Deus, o que terá acontecido? — interrogava-se Beatriz Andor.
Isabel Marmelo, revisora da revista e assídua leitora de livros policiais, já tinha uma teoria.
— É certinho! Como não temos mordomo, de certeza que foi a mulher da limpeza.
Ouviram-se risos, mas só quem fosse daltónico não perceberia que eram tão amarelos como o equipamento da selecção brasileira.
Enquanto isso, o senhor Patins encontrava grandes dificuldades. Durante as horas de expediente tinha de passar o tempo a levar material à Graftintin, empresa gráfica que trabalhava habitualmente com a Empada, pelo que só depois das seis e meia da tarde podia dedicar-se à investigação. Só que, a essa hora, já não estava ninguém na Nova Mente.
Ele aproveitava, então, para vasculhar as gavetas, tentando encontrar qualquer coisa que o ajudasse a descobrir o homicida. Uma noite, enquanto se dedicava a esta tarefa, foi apanhado em flagrante por Júlia Cantos. Metendo os pés pelas mãos, o senhor Patins procurava desculpar-se junto da jornalista.
— Andava à procura das chaves da minha mota. Não sei onde é que as meti...
Júlia sorriu, sentando-se numa secretária. Ao fazê-lo, a mini-saia preta subiu, deixando entrever a costura das meias.
— Não se preocupe, senhor Patins... Ou será que o posso tratar por Patinzinho?
O senhor Patins engoliu em seco, tentando desviar o olhar da escultural jornalista.
— Pode, pode! — gaguejou.
— Eu sei de que é que anda à procura. Já encontrou alguma coisa?
— Mais ou menos, mais ou menos. Pelo menos, acho que estou mais perto do que nunca de encontrar o criminoso! — respondeu o detective.
— Acredito perfeitamente. O seu olhar não mente, e diz que o meu querido é um homem inteligente.
— O seu querido? Quem?
— Você, seu tolo! Sabe que esses óculos só servem para esconder um olhar arguto como o de uma raposa?
Ele corou.
— Nunca ninguém me tinha dito nada disso...
Foi esta a altura escolhida pelo patrão para entrar na Nova Mente. Ao ver Júlia sentada na secretária ficou escandalizado.
— A casa ainda não foi à falência! — criticou.
Júlia Cantos apressou-se a descer, ajeitando a saia.
— Íamos agora mesmo sair... — disse.
E Júlia saiu, juntamente com o senhor Patins. Mas o idílio estava longe de ter terminado.
— Patinzinho, dá-me uma boleia para casa? — pediu a jovem.
— Claro que dou! — foi a resposta — É só o tempo de ir buscar outro capacete.
Os dois subiram para a pequena mota. A falta de espaço fazia com que o peito de Júlia se colasse às costas do motard, quase o fazendo despistar-se por duas ou três vezes. Um pouco mais à frente, por pouco não se atiravam para debaixo de um camião quando Júlia segredou ao ouvido do senhor Patins qualquer coisa como:
— Excita-me tanto andar de mota a alta velocidade!
E era verdade, a Vespa parecia voar, com o velocímetro a atirar-se para cima dos 50 km/h!
Finalmente chegaram. Sentados no banco da mota, ainda conversaram um bocadinho.
— Mas, falando a sério, já descobriu alguma coisa? — perguntou a jornalista.
— Francamente, francamente, desconfio de uma pessoa mas ainda não encontrei provas.
— De quem é que desconfia, meu querido?
— Não posso dizer-lhe, mas tenho quase a certeza.
— Não é de mim, pois não, meu amor? — interrogou Júlia, acariciando o capacete do senhor Patins.
— É claro que não. A menina seria incapaz de fazer uma coisa daquelas! Estou certo disso.
— Bem, já são horas de entrar. Até amanhã.
— Até amanhã.
Ainda antes de entrar em casa, Júlia Cantos voltou-se para trás, lançou um beijo e um comentário aparentemente inofensivo.
— Sabe de quem é que eu desconfio? Do Frederico Colarinho. Viu como é que ele desapareceu logo depois do crime?...
8 de Janeiro de 1997. Quarta-feira. Natal e passagem de ano haviam ficado para trás. Em quadra festiva, o detective havia tirado umas mini-férias na sua casa de praia, junto à Praia do Teco. Nas duas últimas semanas de Dezembro, na redacção da Nova Mente, pouco ou nada se falou acerca do crime. A época natalícia havia trazido a paz que andava a faltar. Mas, com a entrada do novo ano, viria a restabelecer a desordem habitual. Como em cada manhã, ao entrar na Empada, Patins olhou atentamente para todo o lado. Desde que fora encarregue da investigação, via a “sua” empresa com outros olhos, mais atentos. E, ainda por cima, os seus grossos óculos permitiam-lhe observar pormenores que, a outros, podiam passar em claro.
Logo à entrada, na Mete Dias, todos tinham um ar comprometido. Bernardo Grito e Punha e Alberto Sorrindo discutiam, amigavelmente, a contra-capa da próxima edição. Gritavam, gritavam, gritavam. Até que o editor se saiu com esta:
— Ouça lá, aqui quem Grito sou eu!
Alberto, Sorrindo, aceitou o argumento, mas ainda tentou responder e ganhar a parada com a ajuda dos outros elementos da redacção.
Patins, observando tudo, reparou então que alguns jornalistas estavam com phones nos ouvidos, a tirar entrevistas feitas na TIC e na TVS (Televisão Santa). Esses redactores eram Luís de Seitas e Frederico A. Guiar, que, tão concentrados, nem se aperceberam do sucedido.
— Não, decididamente, o criminoso não está aqui — pensou Patins.
De qualquer forma, e como o caso era demasiado complicado, Patins não podia excluir quem quer que fosse. E era por isso mesmo que também na Mania algumas expressões não passavam despercebidas ao detective. Carlos Corria e Luís Lavares, por exemplo, gastavam largas horas na casa de banho a fazer qualquer coisa que ninguém sabe bem o quê. Patins chegou a apanhá-los em flagrante, mas os saquinhos que trocavam desapareceram rapidamente nos bolsos. Em relação a Sílvia Rastos, o seu sexapil levava o detective a desconfiar de qualquer coisa estranha, mas não sabia definir o quê. Seria só atracção carnal? Mas o Patins, coitado, gostava mais de peixe...
Estava o detective imerso nestes pensamentos quando se cruzou com Daniela Azeitona. Os seus calções curtos prenderam por momentos o olhar de Patins, mas a sua consciência profissional não lhe permitiu ir mais longe. “Patins, Patins, o culpado está sempre onde menos se espera...”, disse de si para consigo, enquanto se encaminhava para o gabinete dos tradutores.
Nesta sala não havia grandes dúvidas: a estar ali o culpado, seria sempre o chefe. Eduardo Tigre Caia. Mas não devia ser ele. Com o seu tamanho, para matar alguém seria sempre à porrada, e nunca com veneno. Mas era melhor não dar nas vistas, porque se o Eduardo o visse talvez não gostasse. E, com tipos deste tamanho, convém não brincar...
No gabinete de televisão, onde Frederico Colarinho tinha o seu desarrumado covil — mas onde nunca estava — haviam outros suspeitos. Quem sabe se Anabela Courinho, que tinha tantos contactos com agências, não teria qualquer razão de queixa da rapariga. Mas, a ser assim, porque teria roubado o material? Também podia ser um conluio entre Carla Desgraça e Filipe Viana do Castelo, dois perigosos sportinguistas. Se a rapariga fosse do Benfica... Não, esta não servia, porque senão até o patrão seria suspeito!
Também a Mulher Cisterna tinha muitas potenciais criminosas. Lurdes Gordinho, a chefe, não jogava com a bola toda — e sabe-se como é perigoso fazê-lo. Já diz o Povo: meia bola e... força! Paula Serões era demasiado pequena e, para matar alguém, teria que ser mesmo com veneno. Regina Com Tu Mel's acreditava nas forças do Além, mas estava de baixa na altura do crime. A menos que fosse médium... Mas não, parece que jogava na defesa. A alternativa Leonor Maiscedo tão pouco lhe agradava. E Helena Cousa? Para matar alguém, seria de certeza a chefe!
E por que não Dona Gaita ou Marco de Canavezes? Sabendo que a despesa corrente da Empada à agência da rapariga morta já atingia umas largas centenas de escudos. Dona Gaita, zelosa e cumpridora do seu dever, era uma possibilidade a levar em conta. E Marco, que nunca foi à bola com intrusos? Tudo estava em aberto...
Mas, vá lá saber-se porquê, Patins estava inclinado para Frederico Colarinho. Tão inclinado que acabaria por dar um jeito desgraçado ao pescoço que o impediu de continuar este capítulo, que desta forma se fica pelas 85 linhas (4560 caracteres). Duas semanas de baixa e... Patins volta à carga. O seu pensamento estava, agora, no Botswana...
22 de Janeiro. Quarta-feira. Algures no Botswana, Frederico Colarinho, que, afinal, acabaria por ficar dois meses, estava longe de pensar do que pendia sobre a sua cabeça. Quando, ao volante do carro, atravessava a povoação de Sundibartwamaleke, um agente da autoridade interpelou-o.
— Boa tarde. Sou o sargento Ntsunga Bakanale. Tenho ordens para o enviar no primeiro avião para Lisboa...
— Ordens de quem? — interrogou o incauto jornalista.
— Do maior detective português: o senhor Patins! Ele telefonou-me e pediu-me este favor, que muito me honra.
Dois dias volvidos, o avião da TB Air Botswana aterrava na Portela. Na pista, com a sua Vespa, o senhor Patins aguardava aquele que pensava ser o principal suspeito do crime ocorrido na Empada.
— Monte! — ordenou o detective.
— Em quem? — perguntou Colarinho.
O senhor Patins ofendeu-se.
— Deixe-se de brincadeiras, porque a situação é séria. A partir deste momento tudo o que disser poderá ser usado contra mim.
— Contra si?
— Você sabe muito bem! É aquilo que se diz nos filmes...
— “Everything you say can and will be used against you in the court of law”?
— Não me venha com citações latinas. Acompanhe-me e ponto final!
Os dois acabam por deixar a pista e seguem para as instalações secretas da Empada, no Monte Kabraão. Ali chegados, Colarinho, algemado, é levado por Patins ao gabinete do seu assessor neste caso, o temido Teixeira Cancro.
— Boa tarde, Colarinho — saudou o senhor Cancro.
— Boa tarde. Começo por lhe dizer que não sei o que me traz aqui.
— Está a ver, está a ver? Eu não lhe disse? Estes criminosos nunca confessam! — interrompeu o senhor Patins.
— Criminoso, eu? Não sei do que está a falar... — disse o Colarinho.
— Ela disse-me tudo, ela disse-me tudo! Não tem hipóteses... — dizia saltitante e eufórico o detective.
Entretanto, a animada conversa é interrompida pelo toque do telefone. Automaticamente, e por estar mais perto do aparelho, é Colarinho a responder. Do outro lado, reconhece a voz do patrão.
— Quem fala? — perguntou o boss.
— Frederico Colarinho!
— Não acredito. É a primeira vez que o encontro nas instalações. Isto deve ser brincadeira. Ou coisa do Fernando Pereira... — depois, mais sério, continuou — O senhor... ahmmm.... pois.... não é consigo que eu quero falar, merda. Até logo! — e desligou.
No mesmo gabinete, a conversa a três ia continuar, já com o Colarinho desapertado, ou melhor, desalgemado.
— Onde é que o senhor estava no dia e à hora em que, nas instalações da Empada, na Miguel Trombada, a rapariga da agência foi assassinada? — questionou Teixeira Cancro.
— Não sei...
— Está a ver, está a ver? — Patins parecia uma papoila saltitante.
— Deixe-me pensar — pediu Colarinho — Já sei! Estava na Lagoa Azul, num jantar da Fia-te. Só soube do caso no dia seguinte — afirmou.
— Porra! — murmurou Patins — lá foi a minha teoria.
— Presumo que tem testemunhas... — lançou Cancro.
— Quantas quer? — perguntou, com ironia, o jornalista, agora mais descansado.
A primeira suspeita caía, assim, pela base. Insinuações “oferecidas” de bandeja eram completamente eliminadas, para desgosto do perturbado Patins. E agora? O que fazer? A sua dúvida não durou muito tempo. la convidar Júlia Cantos para sair, porque, apesar do sucedido, continuava com confiança extrema na intuição (e não só...) daquela mulher.
Em casa, Júlia Cantos assistia ao "Casos da Bófia” quando o telefone tocou.
— Estou? — atendeu.
— Boa tarde, menina. Daqui fala o Patins. Afinal de contas, o sacana do Colarinho não tem nada a ver com o crime. Enganámo-nos...
— Já tinha pensado nisso. Mas o que é que se passou, conte-me lá — disse Cantos.
— Agora não posso dizer. Se quiser, logo à noite podemos ir beber um copo à 34 de Julho.
— Um de cada vez, claro! — exclamou o Patins.
E assim foi. Na sua Vespa 50 (mas Turbo!) cada vez mais rodada, Patins deixou Monte Kabraão e chegou ao Caranjeiro em pouco mais de três horas. À porta do prédio, Júlia Cantos já aguardava, trajando um vaporoso vestido vermelho de seda. Patins, ao deparar com tal cenário, espetou-se contra o caixote do lixo.
— Meu Deus...
— Magoou-se, Patins?
— Não, nunca me magoo! — respondeu entre dentes, lutando para não esfregar o cotovelo esfolado — Fiz isto para fugir de um cão que se atravessou à minha frente.
— Ah, é ecologista?
— Não, sou do Belenenses.
— Pois. Então, onde é que vamos? — interrogou Júlia.
— Vamos a um sítio novo, de que os meus netos me têm falado muito. Chama-se Creme...
— Kremlin, quer você dizer.
— Ou isso! Sabe, esses nomes estrangeiros...
E foram. Júlia Cantos sabia o que fazia e Patins estava de tal forma louco por ela que até buzinou na portagem. A GNR, pasmada, via o pequeno veículo a voar baixinho, com o lenço vermelho de Júlia esvoaçando ao vento.
Na 34 de Julho arranjaram um lugar mesmo à frente da discoteca. Patins deu 200 escudos ao primeiro que se acercou.
— Está a ver como sou generoso? — perguntou o detective.
— Estou. Só não percebo porque é que deu dinheiro a um polícia de trânsito...
Só agora Patins via a farda, bem perto dele, contando as moedas de um escudo que o detective tinha guardado para a portagem e que não pagara.
— Sabe, eles ganham tão mal...
Quando se preparavam para entrar no Kremlin, Júlia não conseguiu evitar um gritinho.
— Aaaaaaiii!
— O que é que foi? — perguntou-lhe Patins.
— Ali, a Lurdes Posta!
E era mesmo. Alguns metros mais abaixo, a sua colega de redacção ajudava a arrumar automóveis, recebendo gorjetas.
Patins foi o primeiro a reagir à situação. Puxando-a por um braço, arrastou Júlia para trás de uma camioneta.
— Percebe o que é que isto significa? — perguntou à sua companheira.
— Não...
— É que ela pode ser a criminosa! A maior parte dos arrumadores andam metidos na droga, e ela não deve ser excepção. Já estou a ver o filme. Matou a rapariga para roubar o material e vendê-lo a uma revista concorrente das nossas. Talvez a Mona ou a Estática.
— Acha que sim?
— Tenho a certeza — afirmou, veementemente, o Patins — aquele ar dela nunca me enganou. Debaixo de um olhar de femme totale...
— Femme fatale — interrompeu Júlia.
— Não me interrompa o raciocínio! Como ia dizendo, debaixo daquele olhar de... coisa esconde-se um grande potencial homicida. Desculpe lá, tem de ir para casa sozinha, porque eu vou seguir a minha principal suspeita.
A noite foi longa para o senhor Patins. Enquanto Júlia, literalmente enraivecida, demandava terra do Sul do Tagus, o detective passava o tempo a correr de lado para lado da 34 de Julho, para não perder de vista a jornalista transformada em arrumadora.
Cerca das 6h30 da manhã o pobre Patins já não podia mais. Os joanetes incomodavam-no e o reumático fazia-se sentir na sua anca esquerda. Amaldiçoava aquela mulher que, graças ao “Step” do Eurosport, que seguia todas as manhãs, tinha uma notável preparação física. E Lurdes Posta continuava. Já com as discotecas fechadas, transferiu-se de armas e bagagens para a zona da Praça da Ribeira, onde auxiliou os feirantes a estacionar as suas camionetas.
— Quando é que isto acaba?! — perguntava-se Patins.
O relógio marcava 9h30 quando, de repente, a jornalista parou. Entrou numa casa de banho e saiu pouco depois. Toda a roupa que vestira durante a noite tinha desaparecido, provavelmente dentro do saco de viagem que transportava. Envergava, agora, um tailleur esverdeado que lhe ficava a matar. Com a maquilhagem nem parecia ter perdido a noite.
O senhor Patins, entretanto, parecia recém-saído do túmulo. Olheiras fundas, olhos vermelhos, andar cambaleante. Quando viu Lurdes entrar num táxi e teve de correr para a sua Vespa as coisas pioraram ainda mais. Pouco faltou para se ouvir o ranger das suas articulações, enquanto entredentes amaldiçoava todos os que estavam, directa ou indirectamente, relacionados com este caso.
Como era sábado, ela não podia ir trabalhar, pensava Patins enquanto tentava não perder de vista o táxi em que a jornalista seguia. Para seu espanto, a corrida terminou nas Pasteleiras. O detective, que vinha um pouco atrasado, teve de abandonar a mota sobre o passeio para poder continuar a seguir Lurdes Posta. Eram 10 horas da manhã. A hora a que o “Patuscus” abria. A hora a que a jornalista entrou na loja. A hora a que, de gatas do outro lado da escada rolante, Patins observava e era observado. Não, não estava a ser seguido. Só que um homem a quatro no meio do mais frequentado centro comercial de Lisboa não é, propriamente, uma visão habitual...
Antes de ser interpelado por um polícia, Patins ainda teve tempo de ver para que é que Lurdes Posta precisava do dinheiro. Não, não era para droga. As centenas de moedas ganhas durante a noite mudaram de mãos, trocadas por um magnífico vestido de noite preto, cheio de lantejoulas e com uma racha que subia até locais que um homem sério não deve citar.
Patins estava indeciso. Devia já comunicar ao patrão a sua (brilhante) descoberta ou continuar com as investigações até encontrar provas mais palpáveis?
— Talvez seja melhor falar com o patrão, não me vou pôr a apalpar a Lurdes Posta — pensou Patins, de si para si — não é que não queira, mas acho que ela não ia gostar.
Com esta dúvida em mente, Patins decidiu esperar por segunda-feira para tomar alguma atitude. Entretanto, contacta Júlia Cantos para a pôr ao corrente do que se passou na noite de sexta-feira. Também estava um bocado arrependido por a ter deixado na 34 de Julho assim, mas o dever chamava-o.
— Júlia, nem sabe o que descobri. A Lurdes é a assassina!
— Como assim?
— Ela está mal de finanças. Anda a arrumar carros na 34 de Julho para poder comprar vestidos nas Amoreiras. Assim, ela assassinou a rapariga da agência para vender o material da Tiana a outra revista.
— O que vai fazer agora, Patins? — perguntou Cantos.
— Vou falar com o patrão na segunda-feira.
— E se não for ela? O patrão ficará furioso e você sabe como ele é...
— Uummm... Pois é... Se calhar tem razão, talvez seja melhor continuar a investigar... Sim, vou investigar a Lúcia Doer-te. Não sei por quê, mas acho que ela anda a roubar coisas da Empada.
— Como assim!? — perguntou Júlia.
— Quando sai às quatro horas da tarde, desconfio que ela leva coisas na barriga, que é muito grande.
— Mas ela está grávida! — disse Júlia, sem conter uma gargalhada.
Patins ficou rubro de vergonha, a sua teoria tinha ido (mais uma vez) por água abaixo.
— Mas, mesmo assim, vou investigá-la — insistiu — não deixa de ser uma das suspeitas só por estar grávida.
— Você é que sabe — concluiu a jornalista.
E, perante o silêncio do detective, Júlia não insistiu mais no assunto.
Patins procurava imaginar como uma mulher grávida pode cometer um assassínio.
Patins, Patins, você está a deitar fumo — declarou Júlia assustada.
Bem, tenho de me ir embora — Patins não quis meter mais água (na fervura).
Enquanto o detective se debruçava (chegou até a cair duas vezes...) sobre mais um potencial autor do crime, nas instalações da Empada o ritmo de trabalho continuava infernal, como sempre. Era segunda-feira (27 de Janeiro) e, uma vez mais, Beatriz Andor chegara atrasada. A mesma desculpa de sempre:
— Foi o trânsito, chefe.
— É sempre a mesma merda. Desde o dia que a moça morreu, tenho reparado que vocês andam todos muito nervosos. Ainda vão julgar que o assassino está aqui, entre nós — disse, também ela muito nervosa.
E fez-se silêncio por longos minutos.
Todos sabiam que Patins estava a investigar o crime. Mas os resultados, esses, estavam no segredo dos deuses.
— É segunda-feira, meio-dia e eu quero fechar a revista 1066, porra!
— Mas, chefe, acabámos de fechar a 1063... — disse a redacção, em uníssono.
— Tá bem, mas... não podemos parar.
Quem também não parava era Patins. O seu alvo agora chama-se Lúcia Doer-Te e a tarefa não se adivinhava nada fácil.
Às quatro da tarde dessa segunda-feira, como vinha acontecendo há alguns meses, Lúcia deixou as instalações da Empada e dirigiu-se para casa. Patins pegou na Vespa e seguiu-a. Com um disfarce apropriado para o efeito — de óculos e trajes à Pedro Abrunheira — Patins parou ao lado do Fia-te da jornalista num sinal vermelho.
— Olá menina, como está? — perguntou Patins, enquanto um grupo de teenagers se aproximava da sua motorizada.
— Mas... é o Pedro Abrunheira! — afirmou, estupefecta, Lúcia Doer-Te.
— Sou, sou. Mas é preciso ter calma — disse Patins, fazendo um estranho sinal com ambas as mãos.
— Eu sou jornalista da Nova Mente, podíamos aproveitar para marcar uma entrevista. Pode ser?
— Claro que pode. Quando é quer fazer isso? — perguntou Patins “Abrunheira”.
— Já hoje. À noite. Posso ir ter consigo onde quiser — disparou Lúcia.
— De maneira nenhuma. Eu vou ter consigo. Diga o local e as horas.
— Tudo bem. Eu vou telefonar ao fotógrafo, que é o Alexandre Bordel, e marcamos às 22 horas no "MacRod", uma casa de hamburguers que fica mesmo ao lado da "Kornirex" das Pasteleiras.
— OK! Estarei lá.
O sinal verde abriu e Lúcia arrancou. Feliz e satisfeita, pegou no telemóvel e ligou para a redacção a dar a novidade.
— Grande brasuca, assim é que é! — disse Lapela, eufórica, que por acaso até estava à rasca de capa para a revista 1069.
Subitamente, Patins via-se aflito para se desembaraçar das meninas que não o largavam com pedidos de autógrafos.
— Não posso mais, não posso mais — gritava, enquanto voltava a acelerar a Vespa para fugir das fanáticas que desmaiavam em pleno asfalto.
A muito custo, conseguiu entrar na casa de banho de um café e tirar o disfarce. O objectivo era agora planear o itinerário nocturno. Para isso, ligou o 2594694 para falar com a sua preciosa fonte de informação.
— Estou, quero falar com a Cantos, por favor.
— Não mora aqui nenhuma Cantos! — responderam arrogantemente do outro lado do fio.
— Desculpe, é engano — disse, antes de voltar a fazer nova chamada. Desta feita acertou no número.
— Júlia, és tu? — perguntou
— Não, eu sou o Tiago. A Júlia está a tomar banho.
— Então o senhor podia dar-lhe um recado?
— Com certeza. Faça favor de dizer o que pretende, que eu encarregar-me-ei de transmitir a sua mensagem.
Júlia Cantos abre, então, a porta da casa de banho e pede a Tiago para não desligar.
— Isabel, Isabel Marmelo, acabo de descobrir uma coisa extraordinária...
— Mas... eu sou o Patins.
— Ah, desculpa Patinzinho, eu estava à espera de uma chamada da Marmelo. Tínhamos combinado ir ao cinema, ver o "Robocop VII".
Patins ficou desconfiado e baralhado. Mas não havia tempo a perder. O importante, agora, era vigiar a noite de Lúcia Doer-Te.
— Estou com pressa. Eu ligo-te mais tarde, Júlia — e desligou o telefone abruptamente.
Júlia ficou estarrecida. O que quereria Patins? Será que desconfiava dela? Tinha que o descobrir. E prometeu a si mesma não lhe falar mais de Isabel Marmelo. Talvez ele ficasse afectado com os ditos cujos, o Tiago dizia que nunca tinha visto nenhuns assim.
Mas não se podia esquecer de falar com Patins. Ele não podia desconfiar dela, se chegasse ao ouvidos do patrão era despedida de certeza. E, com as contas que tinha para pagar, isso não podia acontecer.
Patins também ficou a pensar: — o que seria que Júlia teria descoberto de tão extraordinário? Para contar à Isabel Marmelo, não poderia ser grande coisa... Isabel é revisora e não era uma das principais suspeitas do crime. O que seria que Júlia teria descoberto? — a ideia não lhe saía da cabeça...
Com o pensamento noutras paragens, Patins rumou às Pasteleiras e ali montou quartel-general. Ficou de vigia e, agora que sabia da condição de Lúcia, pagou 500$00 a um miúdo para ficar na entrada principal e assobiar cada vez que entrasse uma grávida. Não demorou muito...
— O que foi? O que foi? Onde é que ela está? — perguntou Patins ao miúdo.
— Não fui eu que assobiei. Foi aquele senhor de bigode que ali está, quando viu passar a Catarina Roubado. E, realmente, ela trazia cá uma mini-saia...
— Ah!, está bem. Mas até me assustei...
O ritmo cardíaco do detective estava agora nas 150 pulsações por minuto. Ele começava a ficar convencido que a descoberta não ia passar desta noite. Todos os instintos (verdes e brancos) lhe diziam que Lúcia era a criminosa.
Enquanto Patins se perdia em pensamentos, Lúcia atrasava-se, em casa, a preparar a entrevista. Chegou 20 minutos depois da hora marcada. O miúdo não assobiou porque, àquela hora, já estava no cinema a ver o “Rei Leão II”. E deu-se a bronca.
— Senhor Patins, o que está a fazer por aqui?
Patins ficou branco. Verde. Tinto. De todas as cores.
— Eu... eu... eu... tive que ir à "Kornirex" entregar uns papéis a mando do patrão.
— Ah, sim. Olhe, por acaso não viu por aqui o Pedro Abrunheira?
— Quem é esse? Já sei, é aquele miudinho que anda lá na Fórmula 1, não é?
— Não, esse é o Pedro Ré-Mi. Mas não canta, como o Abrunheira.
— Então já não sei, menina Lúcia. Estou completamente baralhado.
— Eu já tinha reparado, esqueça. Ele deve estar mesmo a chegar. Vou entrar no "MacRod", até amanhã, senhor Patins.
— Até amanhã.
O plano do Patins ficava, assim, complicado. Lúcia já sabia da sua presença e não ia ser fácil entrar e manter-se escondido num restaurante tão pequeno. Por isso, ficou do lado de fora a observar todos os movimentos da jornalista. E tirava notas.
No final, ficou desiludido. Nada parecia indicar que Lúcia era culpada. A não ser que... uumm, talvez fosse melhor não se precipitar, já se tinha enganado com a Lurdes Posta e não queria voltar a cometer o mesmo erro. Para além disso, a ideia parecia- lhe fantástica demais. Mas, mesmo assim, anotou-a também para não se esquecer. A sua memória já não é o que era...
Patins não deixava de pensar na coisa maravilhosa que Cantos teria descoberto e que iria contar — ou já teria contado — à Marmelo. Por que razão Júlia lhe iria esconder alguma coisa? Intrigante...
Sem poder encontrar uma explicação lógica para o sucedido, o detective decidiu parar de seguir os elementos da Nova Mente por uns tempos. Já tinha investigado o Colarinho, a Posta e a Doer-Te sem quaisquer resultados práticos — isto, apesar de achar que qualquer deles poderia perfeitamente ser o assassino. Só que... faltavam as provas.
31 de Março. Segunda-feira. Quatro meses e meio depois do crime, o detective navegava ainda nas mais confusas ideias:
— Aquele Colarinho enganou-me bem — pensou Patins — só podia ter sido ele a matar a rapariga da agência e tinha logo que estar no estrangeiro. Foi só para me tramar. E a Lurdes Posta, toda vistosa e a arrumar carros na 34 de Julho... Essa também nunca me enganou. Mas, espera aí, Patins. Concentra-te e pensa bem. O Colarinho podia ter cometido o crime, bastava não ter estado no jantar, no dia do crime, como ele disse que esteve. Como é que eu posso saber se ele estava lá ou não. Eu não estava, por isso não vou poder saber. Não há provas.
Continuando os seus pensamentos, Patins deambulava pelos corredores da Empada. Descendo as escadas, viu-se num lugar onde nunca havia estado.
— Oiça lá, como é que o senhor se chama? — perguntou Patins à primeira pessoa que encontrou.
— Não há revistas, não há revistas! Só amanhã — respondeu, apressado, Rui Manso.
— Não é isso que eu quero — interpôs Patins — Onde estou? Eu não conheço esta parte da Empada.
— Vê-se logo que está cá há muito pouco tempo. Então não vê, você está no Corta-Mato.
Patins nunca tinha ouvido falar de tal nome, mas não deu o braço a torcer (um detective nunca deve dar parte fraca). Olhou em volta e reconheceu logo as revistas que estavam amontoadas às dezenas.
— Mas isto são as revistas da Empada. Quem é você? Vou comunicar ao patrão que o senhor anda a roubar revistas...
Patins parecia decidido. Manso ficou bravo.
— Quem é você?! Isso pergunto-lhe eu.
— Eu? Eu sou o Patins da mota.
Fazendo jus ao nome e conhecendo já a fama do detective, Manso acalmou-se.
— O meu nome é Rui Manso. Trabalho no Corta-Mato da Empada. Sou seu colega, Patins. Ou melhor, senhor Patins.
Já mais satisfeito, Patins procurou saber quais as funções de Manso. Deliciado com o que ouviu, pediu ao prestável colega que lhe fornecesse uma lista dos artigos solicitados pela redacção da Nova Mente. Podia ser que o (ou a) assassino(a) tivesse cometido um erro e ele conseguisse as provas de que toda a gente lhe dizia serem necessárias.
Com estas novas perspectivas, Patins pôs o Colarinho de lado. O criminoso poderia ser outra pessoa.
— Ó senhor Patins, o nó da sua gravata está torto — avisou Manso, procurando agradar ao detective.
— Não se preocupe, fui eu que pus o Colarinho de lado — respondeu Patins, enquanto permanecia com um olhar pensativo.
Uma nova teoria bailava-lhe agora no cérebro: — Se calhar foi isto o que a Júlia descobriu.
Mas, uma intrigante pergunta continuava no ar: por que razão teria ela revelado a sua descoberta à Marmelo? Tinha que voltar às perseguições. A Marmelo sabia alguma coisa. Tinha que saber.
Eram quase 18h30 e o Patins não se queria atrasar. Tinha que chegar rápido à porta da Empada. Ele sabia que Marmelo era pontual.
— Curioso — pensou Patins — a Marmelo e a Cantos saíram juntas. O caso é mais complicado do que eu pensava.
— Patins, o que está aqui a fazer? — perguntou Júlia ao avistar o detective.
— Bem... Eu estive a falar com o Teixeira Cancro e ele mandou-me vir aqui — explicou.
— Percebo, percebo: agora está a controlar as idas ao café.
Vendo a hipótese de uma safa, Patins foi lesto a aproveitá-la:
— Sim, sim. Vamos lá que eu quero falar consigo.
Júlia não percebeu o que ele quis dizer.
— Vamos lá aonde?
— Ao café. Não disse que queria ir ao café?
Percebendo a confusão que reinava na cabeça do detective, Júlia não foi de motas. Ou melhor, de modas.
— Gostaria muito, Patinzinho, mas já combinei ir com a Marmelo. Fica para amanhã, está bem? — Nem esperando pela resposta, Júlia dirigiu-se para a Marmelo.
— O que é que ele queria? — perguntou Marmelo.
— Vê lá, queria convidar-me para ir ao café a estas horas...
E as duas seguiram com destino à estação de Queluz em animada cavaqueira. Patins deixou-as ganhar um confortável avanço e seguiu no seu encalce. Vendo que não podia utilizar a Vespa, apressou-se a comprar um bilhete para o Rossio. A viagem poderia ser longa. Tinha de estar preparado para o que desse e viesse.
Mas, no comboio, Patins teve de seguir numa carruagem diferente e perdeu o rasto de Marmelo e Cantos. Não adiantou ter percorrido todos os lugares do comboio. As duas tinham-se evaporado, tal e qual o vapor de uma chaminé.
— Não percebo — pensou Patins — mas este comboio é eléctrico...
Sentado num banco, observava a paisagem de Lisboa. Dentro de pouco tempo iria entrar no túnel e a visão seria outra. Tão negra com as suas perspectivas.
O seu bilhete, por favor.
Uma nova alma animou Patins. Que sorte tivera. Tinha de agradecer a Deus a sua benção: o caso estava resolvido.
Após sair no Rossio, decidiu contactar Cantos para lhe contar as novidades. Ela, se calhar, iria ficar desiludida, mas a verdade é para se contar!
Só após duas horas conseguiu apanhar Júlia Cantos em casa.
— Júlia, sou eu...
— Eu quem? — perguntou a jornalista, do outro lado da linha.
— O Patins da mota. Preciso de falar consigo com urgência. Vou apanhar um táxi e sigo já para aí — declarou, eufórico — já resolvi o caso.
Para evitar uma resposta negativa, desligou prontamente e dirigiu-se para a praça de táxis do Rossio.
Trrriiimmm. Trrriiimmm. Trrriiimmm. A campainha da porta assustou Júlia.
— Deve ser o Patins — pensou.
— Júlia, sou eu...
— Eu quem?
— O Patins da mota.
— Espere um momento, desço já.
À porta da rua, a euforia de Patins tinha dado lugar a uma máscara de desalento. E os seus pensamentos estavam mais confusos do que nunca.
— Então, Patins, quem foi que matou a rapariga? — perguntou Júlia logo que se abeirou do detective.
— Há um bocado estava a pensar que tinha sido a Marmelo. Mas agora já não sei.
— O que o fez mudar de ideias?
— No caminho para aqui, conversei com a motorista do táxi que me trouxe e ela fez-me mudar de ideias.
— Por quê? — perguntou Júlia, curiosíssima.
— Talvez tenha sido a Beatriz Andor. Qualquer das duas tem motivos suficientes para ter cometido o assassinato.
— Como assim?
— Olhe, vamos jantar e eu conto-lhe tudo. Qual é o restaurante mais próximo? — perguntou Patins, na esperança que Júlia o convidasse a subir.
— Há ali um, mesmo na esquina, que é muito bom — respondeu a jornalista, gorando as expectativas de Patins.
Depois de uma longa conversa, Cantos e Patins discordavam em quase todos os aspectos. A jornalista não aceitava as teorias do detective.
— Eu sou amiga da Beatriz Andor há muito tempo e não a estou a ver a cometer um crime. Ela tem os seus defeitos, é verdade, mas não é uma criminosa. Ou uma serial-killer, como agora dizem — argumentava Cantos.
— Está bem — acedeu, finalmente, Patins — a Andor não é a assassina, mas então é a Marmelo. Só pode ser.
— Por quê? — perguntou, surpreendida, Júlia, pensando que Patins não lhe tinha contado tudo.
— Então... ou é uma ou outra. E se não é a Andor, só pode ser a Marmelo.
— Mas, ó Patinzinho, eu também conheço bem a Isabel e não a estou a ver a cometer um crime bárbaro, como o que ocorreu nas instalações da Empada. Ela tem os seus defeitos, mas não é uma assassina — argumentou Júlia, em defesa da sua amiga.
Patins já não sabia o que dizer, o caso era mais complicado do que ele esperava. Muito mais...
— Se não foi o Colarinho ou a Posta, nem a Doer-Te, nem a Marmelo, nem sequer a Andor... então quem foi? — perguntou vibrantemente, pensando que tinha de encostar Cantos à parede (difícil, mas não impossível).
— O patrão paga-lhe a si para descobrir, não a mim. Eu sou uma mera funcionária da Empada... Já estou farta desta conversa, vou-me mas é embora para casa. Até amanhã, Patins, Durma bem.
O detective foi-se embora. Já em casa, Júlia pegou no telefone e marcou um número. Estava angustiada.
— Estou, Isabel, sou eu...
— Eu quem? — perguntam do outro lado.
— Porra, já pareces o Patins. Sou eu, a Júlia.
— Ah... então, tudo bem?
— Menos mal.
— E o marido, vai bem? — pergunta Júlia Cantos.
— Sim, vai bem. E o Bisarma, como está?
— Agora está melhor, já lhe passou a constipação. Está a ver um filme, "A Família Adams II". E o Pó, como está?
— Mais ou menos. Recebeu ontem um teste negativo, a matemática, e está de castigo.
Passados dez minutos.
... aquele Patins. A desconfiar de mim, quem diria? Eu, que não faço mal a uma mosca. Ainda bem, Júlia, que o convenceste de que era tudo mentira, senão, a esta hora, podia estar em maus lençóis. Como detective, para mim, o Patins não serve. É melhor o patrão arranjar outro — afirmou Marmelo.
Entretanto, o citado detective mergulhava os seus pensamentos na estranha morte. Já lá iam quase cinco meses e o caso estava negro. Patins tinha perdido o fio à meada. E comentava com a sua almofada:
Se não foi a Marmelo ou a Andor, então quem foi? — interrogava-se.
As suas coagitações fizeram-no levantar da cama e dirigir-se para as Pasteleiras, onde ficavam os Alunos de Apolilon. Uma enorme vontade de dançar apoderou-se de Patins. Mas havia um problema: não o sabia fazer. Um anúncio chamou-lhe, entretanto, a atenção.
Dão-se aulas de dança. Contactar a secretaria
Entrou e não se fez rogado. Permaneceu lá durante duas horas a fio.
— Que bela noite! — exclamou Patins — nada melhor do que uma caminhada até casa depois de uma noite de dança. Mas... que raio! aquele é o Pau. O que é que ele está aqui a fazer? Merda! Apanhou ali boleia e não há nenhum táxi à vista.
Patins, desesperado, esperou uma dádiva de Deus, mas não apareceu nenhum táxi. Pau tinha conseguido escapar. Mas amanha era outro dia...
2 de Abril. Quarta-feira. Patins tinha um novo suspeito: Rogério Pau. À frente da Empada, aguardou pacientemente pela sua vítima. Ou melhor, pelo seu suspeito. Finalmente, as 18h30 chegaram e com elas (as horas) chegaram também Rogério Pau e Nuno Fermento. Os dois dirigiram-se para o carro do segundo e partiram para destino incerto.
Na sua Vespa, Patins não pretendia ser despistado. Por isso, foi colocar-se na rectaguarda do Rovre. Ao chegar ao Bairro da Mata, Fermento estacionou o carro num parque escondido.
— Chegaram ao destino — pensou Patins.
Puro engano. Pau, ao deixar a companhia de Fermento, dirigiu-se para uma praça de táxis e apanhou o primeiro da fila. Surpreendido com este novo desenvolvimento, Patins quase caía ao sentar-se, apressadamente, na sua Vespa.
— Não percebo — tornou Patins a pensar — nos filmes de cowboys isto resulta sempre.
Quem não estava nada preocupado com esta situação era Rogério Pau. No interior do táxi, pensava na conversa que tinha acabado de ter com Fermento. O que o amigo lhe tinha dito deixara-o intrigado.
— A estória que o Nuno me contou não me cheira nada bem... — pensou em voz alta, esquecendo-se do local onde estava.
— Ah! isso fui fui eu — respondeu o motorista — descuidei-me. Peço imensa desculpa. Eu sei que é chato, mas não posso fazer nada. O carro não tem ar condicionado e está muito frio para abrir as janelas. Mas se quiser, eu posso...
— Não tem importância — interrompeu Pau — não era a isso que eu me estava a referir. Esqueça aquilo que eu disse...
— Então é para onde? — perguntou o motorista.
— Mas... já lhe disse.
— Pois, mas... óspois disse-me para esquecer.
Após este diálogo de surdos, o silêncio voltou a pairar no táxi. E assim continuou até ao final da viagem.
Patins só desejava ser mosca para ouvir esta conversa. Na sua Vespa só viu os lábios a mexer, não conseguindo perceber nada. for instantes, amaldiçoou a hora em que decidiu não se inscrever nas aulas de mímica que a associação de surdos da sua tua linha oferecido a todos os moradores.
Mas esse instante passou depressa. Patins voltou a concentrar-se na perseguição do táxi. Não podia fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Finalmente, o táxi chegou ao seu destino. Patins voltou, então, a pensar nas aulas de mímica e prometeu a si mesmo não deixar escapar uma próxima oportunidade.
Como fora tão idiota... Se tivesse ido às aulas, a esta hora, provavelmente, o caso estaria resolvido e não teria que estar, ainda, a seguir os elementos da redacção da Nova Mente.
Uma outra hipótese de resolver o caso iluminou-lhe a alma:
— Claro! É isso mesmo. Porque é que eu não pensei nisto há mais tempo? Vou falar com o motorista do táxi.
Tarde demais. O carro de côr creme que ele queria não passava de um entre tantas dezenas de outros que circulavam agora na mesma estrada lisboeta.
— Merda! Merda! Merda! Esqueci-me de fixar a matrícula... Esta memória já não é o que era. E agora, qual é o táxi? — murmurou o desesperado Patins — na próxima vez não me vou esquecer deste pormenor. É muito importante. Digo mais: importantíssimo. Não fui às aulas de mímica, esqueci-me de anotar a matrícula (esta memória já não é o que era). Isto é uma maldição. De certeza que há alguém que quer que eu falhe as investigações. Quem deverá ser?
A pergunta atormentou a mente de Patins durante algum tempo. Até que...
— Eureka! Só pode ser isso! Rogério Pau é o assassino. Está a fazer tudo para esconder as provas, mas eu sou mais esperto do que ele e, sabendo o que faz fora da Empada, só me faltam mesmo as provas... Só me faltam mesmo as provas para provar que ele é o criminoso. Mas isso são pormenores, o que interessa é que a maldição chegou ao fim. Tenho de falar com a Júlia.
A conversa com a jornalista não correu como o detective esperava. Em vez de elogiar o seu desempenho — como Patins estava à espera — Cantos achou a estória muito esquisita.
— E as provas, Patins, onde estão? — perguntou Júlia — Isso são apenas conjecturas suas...
— O Cavaco é que costuma falar nessa coisa das conje... nisso que você disse. E, que eu saiba, o Cavaco não tem nada a ver com isto. A não ser que este caso seja mais complicado do que eu penso.
— Até admira... De si já espero tudo. A sua imaginação é bastante fértil. Já me disse que o autor do crime era a Lurdes Posta, a Lúcia Doer-Te, a Isabel Marmelo, a Beatriz Andor e, agora, o Rogério Pau. Só falta mesmo o Cavaco — afirmou Júlia, sem conseguir disfarçar uma ponta de sarcasmo.
— Mas agora que penso nisso, até pode ser... O caso é bem mais complicado do que aquilo que eu tinha pensado. Mas o Pau está metido nisto. Tenho a certeza — conclui Patins.
— E os factos, onde estão? Não há provas — insistia Júlia.
— Eu sei que não tenho provas — respondeu Patins — mas não deve faltar muito tempo para as descobrir. É só eu seguir o Pau outra vez e não cometer os mesmo erros. Amanhã, vai ver, visto o meu fato e descubro as provas.
Após Patins a ter deixado em casa, Júlia telefonou a Marmelo para lhe contar as novidades.
— Quem diria? O Rogério... — Isabel estava atónita.
— Não me digas que também acreditas, Marmelo.
— Eu acho que o Patins é um bom detective — retorquiu a revisora.
— Não disseste o mesmo quando eu te contei que ele desconfiava de ti.
— Mas isso foi diferente — afirmou Isabel — nessa altura eu sabia que ele estava errado.
— E agora não está? — perguntou Júlia.
— Não sei. Talvez tenha razão. O Rogério parece que não parte um prato e esses são os piores. Partem a loiça toda.
— Tá bem. Amanhã a gente fala. Já estamos ao telefone há muito tempo e depois eu não tenho dinheiro para pagar a conta — finalizou Júlia.
Em sua casa, Patins não deixava de pensar no dia seguinte.
— Amanhã vai ser a minha glória. Vou desmascarar o assassino e o patrão vai ficar muito contente, obviamente. Se calhar até me promove e passo a andar de lambreta. Ou até, quem sabe, talvez me ofereça uma Casal Boss. Há muito tempo que sonho com este momento. Chegou o meu dia.
Ansioso por pôr fim a tamanho mistério, Patins não conseguiu dormir naquela noite. As horas pareciam-lhe séculos. De manhã, para passar o tempo, o detective decidiu ir comprar um fato. O seu já era muito antigo e a ocasião merecia algo de melhor. Como era quinta-feira, dirigiu-se à feira de Carcavelos, onde, de acordo com o que um amigo lhe havia dito, havia de tudo como na farmácia. Até podia aproveitar para comprar um lupa e um gravador, que tanto jeito costuma dar aos verdadeiros detectives, como ele.
Após percorrer diversos vendedores, viu, numa carrinha, um cara que, à primeira vista, lhe era muito familiar.
— De onde é que eu conheço aquela cara? — interrogou-se — É-me mesmo muito familiar. Será que é ela? Bem, não interessa... O que é quero é um fato bonito. Como aquele ali, por exemplo.
Por instantes, os pensamentos de Patins divergiram por entre mil cores, modelos, tamanhos, feitios, etc...
— Já sei! Já sei quem é — gritou o detective, surpreendendo quem o estava a atender.
— Desculpe, estava a pensar alto — justificou-se.
— Quer ou não quer comprar o fato? É isso que me interessa — disse a comerciante, decidida.
— Não, agora não — respondeu Patins, partindo abruptamente.
Patins estava de novo em funções. A sua sina era seguir os elementos da redacção da Nova Mente. A cabeça do detective começou a procurar respostas para uma intrigante pergunta: O que seria que Sundays Cross estava a fazer na feira de Carcavelos a uma quinta-feira de manhã, quando, a essa hora, já devia era estar a trabalhar em Queluz?
Após ter telefonado para a Empada tomou conhecimento de que ninguém sabia da Cross. Tinha faltada sem autorização e sem avisar. Mais: era normal não aparecer à quinta-feira. Ninguém sabia porquê. A não ser Patins...
Sundays Cross temeu o pior ao avistar Patins.
— De certeza que esse detective da treta vai desconfiar de mim — pensou Cross — e agora, o que vou fazer?
Patins “atropelou” três feirantes na desenfreada corrida até chegar junto à empregada da Empada.
— Páre ou disparo! — afirmou convicto, antes de puxar da Walter 9mm — comprada pouco antes na barraca 32.
— Não estou a perceber, senhor Patins...
— Pois fique sabendo que eu já percebi tudo. Vou algemá-la e terá que vir comigo até ao excelentíssimo Teixeira Cancro. Estou certo que o caso acaba aqui. Foi você quem matou a rapariga — afirmou, peremptoriamente, Patins.
— Eu?! Que disparate! Não pense uma coisa dessas...
— Aí penso, penso. E digo mais: desta não se safa!
— Mas que provas tem contra mim? — contrapôs Cross — Se não me as apresentar, tenho impressão que passo de acusada a acusadora...
— Provas?! Mas para que é são precisas as provas se eu não comprei o fato? — perguntou Patins.
— Não são dessas. São as provas de que cometi o crime.
Patins ficou sem saber o que dizer. Guardou a pistola, suspirou e comentou para os seus botões: — Grande merda. É sempre a mesma coisa: as provas, as provas... Para que raio serão precisas as provas? Mas, mesmo assim, desta ela não escapa.
— Então, Patins, não diz nada? Está aí tão caladinho... Já mudou de ideias, ou não?
— Mudar de ideias, eu? Eu nunca mudo de ideias!
— Vá-se mas é embora e não diga a ninguém que esteve aqui. E como estou bem-disposta, não vou fazer queixa de si e ainda lhe ofereço um prendinha...
— Muito obrigado dona Cross, nem sei como lhe agradecer (esta gaja está a querer enrolar-me, mas eu não vou em cantigas).
Patins, como sempre, lembrou-se de telefonar a Cantos. Na sua Vespa, em plena marginal, ligou o telemóvel e discou o número da Empada. Ouviu-se do outro lado:
— Estou sim, Empada, bom-dia.
— Queria falar com a Júlia Cantos, mas não diga que sou eu...
— Mas quem é o senhor? — perguntou Pena.
— Ah, desculpe menina Pena (esta memória já não é o era), sou eu. O Patins da mota.
— Está bem, vou passar.
A transferência foi feita e passados alguns instantes Cantos e Patins estavam a falar.
— Júlia, sou eu.
— Eu quem? — perguntou Júlia.
— O Patins da mota.
— Sim, diga lá o que quer.
— Cantinhos, continuamos a avançar nas investigações. Afinal o Pau não é o criminoso. A Sundays Cross é que matou a pobre rapariga.
Ao cabo de várias semanas de investigações, Júlia Cantos começava a dar os primeiros sinais de saturação. Já quase não aguentava as teorias de Patins e só não lhe o dizia porque... tinha medo de passar a ser a principal suspeita. Esteve quase para desligar o telefone, mas não o fez. Era notório que Patins se sentia cada vez mais atraído por Júlia e, sabendo-o, a jornalista procurava tirar partido disso mesmo.
— Porque pensa isso, Patinzinho?
— Ora, muito fácil: porque ela falta sempre à Quinta-feira de manhã para ir para Carcavelos...
— Que disparate! Hoje é Quinta-feira e ela está aqui. Ainda agora estive a falar com ela.
— Não é possível, como é que ela ainda pôde chegar aí antes de mim? (esta mota de merda está mesmo a precisar de uma revisão bem feita, já não é o que era) Esqueçamos isso. Tenho uma coisa muito bonita para lhe oferecer. Dou-lha logo à noite, quando formos jantar a um restaurante muito bom que conheci há pouco tempo. Chama-se MacRod, fica nas Pasteleiras. Conhece! — perguntou Patins.
— Não, por acaso não — respondeu Júlia.
Dito isto, Patins desligou o telefone. Sentia-se orgulhoso, o crime estava quase desvendado e Júlia cada vez mais perto. Quase tão perto como o autocarro...
Patins não sabia agora onde estava. Olhava para um lado, olhava para o outro e não conhecia nada nem ninguém.
— Este não é o meu quarto. Como é que eu vim aqui parar?
— Senhor Patins, tenha calma. Você teve um acidente de mota às 11h43m, em Queluz, mas já lhe fizémos exames e não sofreu nada de grave. Apenas uma ligeira perda de memória.
— É o que eu digo: esta memória já não é o que era.
— Se a sua situação clínica se mantiver, dentro de hora e meia poderá deixar o Hospital Amadora-Sintra — disse a enfermeira de serviço, para depois concluir — a sua sorte é que estas instalações são novas e estão equipadas com tudo de melhor. Caso contrário, a esta hora já estava a caminho do Alto de São João.
Patins ficou aliviado. Apesar do susto (nota do tradutor: Patins foi considerado culpado do acidente por 14 das 15 testemunhas que presenciaram o embate da sua Vespa com o autocarro da Rodoviária), o jantar com que sonhara ia mesmo ter lugar. Ainda que com algumas dores, Patins pegou nas chaves da mota, no capacete cor-de-laranja, na prenda que tinha recebido de Cross — e que, por sua vez, iria oferecer a Cantos — e zarpou rumo ao Caranjeiro. Eram cinco horas da tarde e ele não queria chegar atrasado.
— Júlia, sou eu.
— Eu quem? — perguntou Cantos.
— O Patins da mota.
— Já vem atrasado... Só um momento, desço de imediato.
Patins aguardou ansiosamente que Júlia descesse pelo elevador. Os segundos pareceram-lhe horas.
— Lá vem ela — pensou Patins — que maravilhosa silhueta cheia de cantos, ou melhor, curvas. É um sonho de...
— Patins, do que é que está à espera? — perguntou Júlia, interrompendo os pensamentos do detective.
— Ah, desculpe. Estava a pensar no crime...
— Trabalho, trabalho, trabalho. Não sabe pensar noutra coisa, Patinzinho. Sempre vamos jantar juntos... — insinuou Cantos, deixando Patins atarantado.
— Sim, sim, claro. Vamos montar.
— O quê? O que quer dizer com isso, senhor Patins?
— Vamo-nos montar na mota. Foi isso que eu quis dizer — esclareceu o detective.
— Ah, bom. Por momentos, pensei que quisesse dizer outra coisa. Mas esqueça... Mulher séria não tem ouvidos.
Sem outros mal-entendidos, os dois seguiram para o local do jantar. Pelo caminho ficaram as dúvidas de Cantos sobre o que Patins quereria dizer. Sentados na mota, o espaço entre o detective e a jornalista, pura e simplesmente, não existia. Era tal e qual como o raciocínio de Patins.
— Como posso raciocinar assim? — perguntava-se Patins — Com ela aqui tão perto, e eu com as mãos agarradas ao guiador. Quando chegarmos ao restaurante, a Júlia vai ficar radiante com a prenda que lhe vou oferecer. E depois... u noises? Ou qualquer coisa assim. Foi o que eu vi no filme E Nada a Chuva Arrastou.
Com a chegada ao MacRod, Patins não conseguiu disfarçar a sua desilusão.
— Que pena. A viagem foi tão agradável — comentou.
— Você anda mesmo atrasado — retorquiu Cantos — essa telenovela já acabou há muito tempo. Agora é a "47.5 Uma Vaga No Ar".
— Não é no ar, é no mar.
— No mar!?
— Sim, não é o Vagamar?
— Não... Isso é do patrão. Eu estou a falar da telenovela da televisão — afirmou Cantos, convicta.
— Agora não estou a perceber — disse Patins, confuso — você está a falar da TIC ou do Vagamar?
— Nem de uma coisa nem de outra. Estou a falar da telenovela do Canal Zero. E você, está a falar de quê?
— Da viagem.
— Bem, vamos lá ver se nos entendemos. Eu estou a falar de alhos e você de bugalhos, assim não dá para ter uma conversa de jeito.
Cada vez mais confuso com a confusão gerada — o que é que os alhos teriam haver com a conversa? — Patins mudou de conversa.
— Vamos entrar para jantar. É melhor.
O MacRod estava cheio. Eram 22h35 e os dois não perderam tempo em escolher mesa. Os pratos do dia (da noite, no caso) eram apenas três:
Hamburguer com queijo, hamburguer com fiambre e hamburguer misto. Patins chamou o empregado.
— Por favor, traga-me um hamburguer o mais rapidamente possível. Estou com muita fome...
— Sim senhor. Quer o seu hamburguer com quê? — perguntou o empregado.
— Com pão, ora essa.
— Mas... senhor — Júlia interrompeu e, rapidamente, pediu dois mistos. Patins entendeu a "gaffe" e justificou-se com as modernices, que ele teima em não acompanhar.
— Deixemos a comida de lado. Eles ainda vão demorar aí uns bons vinte minutos a trazer a comida e, por isso, temos tempo mais do que suficiente para conversar — disse Júlia.
Patins meteu a mão esquerda num saco, tirou de lá a prenda que prometera a Cantos, mas, antes de lhe a entregar, ainda fez questão de lhe contar a sua aventura matinal.
— Com a emoção, quase me esquecia de lhe contar o que me aconteceu hoje de manhã. Nem queira saber, estava eu quase a chegar à Empada quando um sacana que conduzia uma camioneta da Rodoviária não respeitou um sinal de STOP e veio contra a minha vespazinha...
— A sério?! — exclamou a jornalista — Ah! probrezinho... E não se magoou?
Entretanto, uma mulher grávida tinha acabado de entrar no MacRod e escuta a parte final do diálogo. Era Lúcia Doer-Te.
— Mentiroso. Esse Patins é mentiroso... e perigoso. Eu vi tudo, tinha ido ao Supermercado comprar fraldas e assisti a tudo. O Patins é que provocou o acidente. Adormeceu em cima da mota...
— Lúcia??? O que é que você está aqui a fazer? — perguntaram Cantos e Patins ao mesmo tempo.
— Ora, o mesmo que vocês, provavelmente: vim jantar. Patins, não mude de conversa. Por que é que você estava a mentir? Eu já começo até a duvidar dos seus dotes de detective privado...
— Por amor de Deus, pode chamar-me mentiroso (talvez eu tenha uma perspectiva do acidente um pouco diferente da sua...), mas duvidar da minha qualidade de detective, isso não.
Júlia assistia, impávida e serena, formosa e segura, ao desenrolar do diálogo entre os dois colegas. Até que um dos empregados do MacRod se abeira da mesa e diz para Lúcia Doer-Te:
— Menina Lúcia, o senhor Roberto Marzinho chama-a ao seu escritório.
— Desculpem, eu volto já. É só dez minutos.
Tal cena deixou Patins deveras intrigado, que só não a perseguiu de imediato porque estava mais interessado em entregar a prometida e adiada prenda. Mas, mesmo assim, a sua memória — que já não é o que era — registou tudo.
— Cantinhos, antes que venha a comida, entrego-lhe este presente. É lindo!
Patins nem sequer tinha ainda aberto o saco que Cross lhe havia entregue nessa manhã, em Carcavelos. O conteúdo era uma camisola do Pedro Abrunheira com uma inscrição por demais conhecida: Talvez Foder!
— Seu descarado! Mal-criado! Ordinário! Patins, vá ver seu eu estou lá fora!
Patins, ordeiro e respeitador, foi. Viu e voltou.
— Julinha, acho que se enganou. Você não está lá fora — disse Patins, com um sorriso de orelha a orelha.
— Quero ir-me embora daqui o mais rapidamente possível. Não posso mais!
— E depois o que é que vamos fazer? — perguntou Patins.
— Olhe, talvez... — com o médio da mão esquerda esticado, Júlia deu a resposta. E saíu do restaurante em marcha veloz.
Patins mergulha, então, num terrível dilema: — Ficar ou partir?
A tentação de confrontar Lúcia (e aí tentar encontrar as tão procuradas provas) era grande. Mas a vontade de descobrir por que razão Júlia o deixara, ali, sozinho, foi mais forte e levou Patins a abandonar o MacRod no preciso momento em que o empregado trazia os dois hamburguers mistos.
— Então, e agora? O que é que eu faço com isto?
— Olhe, faça um chupa! — respondeu Patins, furioso.
— Um chupa?! — retorquiu o empregado, espantado.
— Sim, um chupa misto!
A sala inteira aplaudiu a resposta pronta de Patins. Este, no entanto, estava mais preocupado em sair na perseguição a Cantos do que em louvores. Ao mesmo tempo, punha pela primeira vez em dúvida as suas capacidades de detective. A razão para tal era muito simples: não percebera as razões por que Júlia se tinha ido embora. E ainda por cima, zangada.
Saíu do edifício das Pasteleiras e montou-se na Vespa. Tentou a perseguição pelo cheiro, mas, para seu azar, naquele dia Cantos tinha trocado de perfume e Patins, afinal, acabou por seguir outra mulher que o levou até ao Alcântara-Rio. Logo que ali chegou, Patins desatou numa louca correria pelas discotecas da zona, que são muitas.
Começou pelo Alcântara-Praia mas cedo constatou que a sua missão não era nada fácil. Apesar de ser quinta-feira, estavam mais de duas mil pessoas na discoteca. Patins entrou em transe, saiu do recinto e decidiu entrar na outra — discoteca — logo ao lado, a Alcântara-Marte. Puro engano. Patins terminou logo ali a sua busca, mal percebeu que todos locais dançantes deviam estar lotados. Optou, então, por regressar a casa. Montado na sua Vespa, fazia a viagem mais dolorosa da sua vida. Uma lágrima marota escorria-lhe pela face. Até que...
Puuuummmm!!!. Um aparatoso acidente, em plena 34 de Julho, “obrigara” Patins a uma travagem brusca. Desceu da mota, tirou o capacete, ligou o gravador e abeirou-se dos automóveis sinistrados.
— Meus Deus, aquele é o Fermento! Até que enfim... Está tudo resolvido! Obrigado Senhor!
Patins pensou, de imediato, “caçar” o jornalista envolvido no acidente. Dirigiu-se para ele, mas, como que por magia, Fermento desapareceu. Num abrir e fechar de olhos. Tinha visto o detective e — ainda mal refeito do susto — não estava disposto a dar-lhe grandes explicações sobre o sucedido.
Junto ao carro mais maltratado estava uma outra cara conhecida de Patins: Sacaniggia, o argentino do Benfica. Era ele quem ia a conduzir o carro onde também seguia Fermento.
— Por favor, eu queria falar com o senhor — pediu Patins ao jogador.
— Ei, hombre, no te entiendo...
— Olha, olha, este quer festa.
— Fiesta?! No, muy cedo... Solo más tarde.
— De tarde? Mas já são quase duas da manhã — contrapôs Patins.
Com a sua viatura desfeita em pó, Sacaniggia estava mais preocupado com o polícia que lhe pedia os documentos do que com a figura pitoresca que não parava de lhe fazer perguntas.
— Você é jogador do Benfica. O que é que o Fermento estava a fazer no seu carro? E porque é que fugiu? — perguntou Patins.
— No tengo la culpa. El otro es que es un criminoso — respondeu Sacaniggia ao polícia de trânsito.
— Agora eu percebi, agora eu percebi tudo. Eu sabia: o Fermento é o criminoso! Já não era sem tempo. Vou telefonar à Cantos...
Patins deixou o local do acidente e, como o seu telemóvel havia ficado desfeito no acidente dessa manhã, não teve outra solução que não fosse ligar de uma cabina telefónica:
— Júlia, sou eu...
— Eu quem? — perguntaram do outro lado da linha.
— O Patins da mota.
Acto contínuo, desligaram o telefone.
Patins ficou atónito. Será que Júlia tinha alguma coisa contra ele? O que seria?
— E agora, a noite acabou. O que é que eu vou fazer? Talvez comer... — pensou Patins e, com isso, dirigiu-se para casa.
No dia seguinte, Patins não saíu de casa. Na sua cabeça reinava (mais uma vez) a confusão.
— Qual dos dois: Júlia ou Fermento? Ele fugiu e estava acompanhado por aquele loiro de cabelos compridos, que nunca me enganou. Ela também fugiu e, ainda por cima, desligou-me o telefone. Se calhar foram encontrar-se um com o outro... É isso, foram os dois que mataram a rapariga. Dois assassinos! Como é que eu não pensei nisto antes. E agora? A quem vou telefonar?
— Marmelo, sou eu...
— Eu quem?
— O Patins da mota.
— Porra, já parece a Júlia — disse a revisora.
— Não me fale nessa maldita mulher. Ela e o Fermento cozinharam o crime.
— Não me admira nada. O fermento é para cozinhar.
Patins estava espantado: a Marmelo tinha desvendado o enredo antes dele. Não podia ser — Não, não são eles os assassinos, é a Carrinho! Exclamou Patins.
— Como assim!? — interrogou Marmelo.
Sem saber o que dizer, Patins desligou o telefone. Mais uma vez, a sua mente estava confusa. O caso era mais complicado do que ele pensava.
Acusar Carrinho sem ter qualquer indício de que fosse ela a criminosa, era, sem dúvida, o primeiro erro de Patins. Ele próprio o reconhecia, mas... o orgulho pessoal era mais forte. Agora, só lhe restava investigar a vida de Carrinho, embora o detective preferisse andar de mota. E quem sabe se não seria mesmo ela a pessoa que Patins procurava há semanas a fio?
Na segunda-feira seguinte, chegou à Empada e tratou de ler todos os jornais do dia. Era preciso estar actualizado para saber como; hoje em dia, actuam os serial-killers. Leu o Público (em dois minutos), o DN (em três) e Correio da Manhã (em duas horas). Crimes e mais crimes eram dissecados pelo detective, que queria saber tudo. Folheou ainda três revistas até que um novo jornal — Seminário de Baleizão — lhe chamou a atenção.
— Que bonito grafismo! A impressão é fantástica. E os textos, que beleza. A qualidade do papel, do melhor. As fotos, magníficas... Que belo jornal. Deixa-me cá ver, só por curiosidade, a ficha técnica.
Patins procurou-a, então, até a encontrar na última página, onde também estavam as notícias de fecho. E foi aí que viu (e leu) uma notícia que lhe era familiar: “JORNALISTA E FUTEBOLISTA ENVOLVIDOS EM ACIDENTE NA 34 DE JULHO”
O detective tratou imediatamente de saber que assinava aquela peça. Mas teve azar, o autor da prosa assinara, apenas, com as inicias: C.C.
— Isto é mesmo mais complicado do que eu pensava... Até aquele Carlos Casto já anda metido nestas confusões. Ou será que foi o Carlos Cunhado, o marido da Marina Mata? Ou o Carlos Cuz? Ou a Carla Caldeirada? Ou a Catarina Curtado, a irmã da Roubado? Ou o Çousa Cintra? Ou, "u noise”, o Cill Clinton? Meu Deus, como é que eu vou descobrir isto? Já sei, vou telefonar para o jornal...
Patins pegou na lista telefónica da região de Aveiro e procurou o número do Seminário de Baleizão. Foi para a sala 10 e procurou, procurou, procurou. Em vão. Pediu, então, a Pena para lhe fazer a chamada.
— Menina Pena, sou eu...
— Eu quem? — perguntou Pena.
— O Patins da mota. Podia ligar-me para o Seminário de Baleizão, por favor.
— Sim senhor, só um segundo.
Pena não demorou mais de um minuto a estabelecer a ligação.
— Patins, sou eu...
— Eu quem? — perguntou o detective.
— A Pena do telefone.
— Porra, já parece a Marmelo — disse Patins — o que é que quer?
— Tenho aqui a chamada que me pediu.
— Eu pedi alguma chamada?! Esta memória já não é o que era... Passe-me lá, então, se faz favor.
Após a confusão inicial, Patins apercebeu-se que estava a falar com Baleizão e fez a pergunta que, segundo ele pensava, iria resolver o mistério da morte da rapariga da agência:
— Quem é C.C.?
— Com qual deles é que querer falar? — responderam do Seminário.
Patins pensou — o caso é mais complicado do que eu pensava.
— Então, não diz nada?
— Espere um momento — respondeu Patins — estou a pensar... Olhe, ligo mais tarde. Com essa é que você me baralhou. Vou ter que falar com uma pessoa.
Patins desligou o telefone e fez uma outra chamada.
— Marmelo, sou eu...
— Eu quem?
— O Patins da mota. Preciso de falar consigo. Pode encontrar-se comigo?
— Quando? — perguntou Isabel Marmelo, com um na mão, e acrescentou — a propósito, sabe que vou fazer uma marmelada logo à noite para o meu marido. Ele gosta muito...
— Não mude de conversa (esta também nunca me enganou), vou já para aí.
Patins ia a sair da sala 10 quando viu Fermento. De imediato, escondeu-se debaixo da mesa. Fermento, sem se aperceber de nada, entrou na citada sala, e pediu uma chamada à telefonista.
— Pena, sou eu...
— Diz, Fermentinho.
— Liga para o número do costume.
— É para já.
Patins continuava debaixo da mesa (— o caso é mais complicado do que eu pensava). Este novo dado poderia ser aquilo que ele esperava há tanto tempo. Mas, Patins não podia pensar agora, a conversa de Fermento já tinha começado e ele não tinha escutado as primeiras palavras.
— ... não te aconteceu nada?
Patins lembrou-se das aulas de mímica. Arrependeu-se, mais uma vez, de não as ter frequentado. Poderia ouvir a conversa toda. Assim, estava limitado a este lado da linha.
— Ainda bem. Olha, eu tive de me vir embora porque sabes como é a minha namorada... Se ela soubesse que eu estava ali àquela hora, matava-me. A mim e a ti. Olha, amanhã vou ligar outra vez para o gajo. Ele oferece 25 mil, mas acho que somos capazes de conseguir os 30 mil. Sempre é mais qualquer coisa, e eu preciso mesmo da comissão. Só ontem foram mais dez contos no Casino!
Do outro lado veio a resposta (que Patins não conseguiu ouvir). Fermento perguntou então:
— Quantos anos tem o teu carro? Um Mercedes vale mais que isso, não vale?
Patins quase rebentava de curiosidade. A conversa era enigmática.
— Vamos lá voltar hoje? Acho que a minha chefe também lá vai... Tu conheces a chica, não conheces?
Sem se mostrar, Patins, perante o erro de Fermento, não se conteve e disse:
— Não é Chica, ela chama-se Dulce Lapela.
Nuno desligou imediatamente o telefone e perguntou:
— Quem está aí?
— Sou eu...
— Eu quem? — perguntou o jornalista.
— O Patins da mota.
Perante esta resposta, a reacção de Fermento foi imediata: abriu a porta e fugiu... Patins ainda tentou a perseguição, mas foi em vão. As suas pernas já não eram o que foram...
— Que cobarde, a esconder-se! — exclamou em voz alta — isso eu nunca iria fazer. Nem nunca fiz.
Dona Gaita, a senhora-dinheiro, interrompeu a gritaria.
— Senhor Patins, então, o que se passa? Está a falar sozinho (coitadinho, este também já deve estar na lista...)
— Não se passa nada.
— Ele é que já se passou — pensou Gaita, seguindo para o seu gabinete. Patins seguiu-a até chegar junto ao guichet.
— Dona Gaita, queria meter uma vela, ou melhor, um vale. À noite vai ser longa e preciso de caixa...
— Cash, quer você dizer — corrigiu Gaita — tá bem. Então, e onde é que a quer meter?
— Meter o quê?
— Sim, a vela.
— Mas eu não disse vela, disse vale.
Dona Gaita explodiu:
— Hoje não dou mais vales. Este seria o 55º. Não pode ser — e acrescentou sarcasticamente — vá ver se eu estou lá fora.
Patins, ordeiro e respeitador, foi. Viu e voltou.
— Dona Gaita, acho que a senhora está enganada. Não está lá fora.
Cores, que tinha assistido ao final da conversa, precisamente quando acabara de sair dos Segredos da Casinha, aproveitou a ocasião para também meter a colher:
— Ó Patins, você é mesmo ingénuo. Se eu o mandasse ver se estava a chover, você ia?
— Não — respondeu Patins, para surpresa de Cores.
— Não!? Mas foi ver se a dona Gaita estava lá fora, quando ela estava aqui.
— Ela disse-me para ir e eu fui. Só que reparei que não estava a chover, por isso posso responder à sua pergunta: não está a chover.
— Ah, assim está melhor — disse Cores — por momentos pensei outra coisa.
— Pensou em quê? — perguntou Patins.
— Pensei que estivesse a fazer Sol.
— Bem, esta conversa não leva a lado nenhum. Eu preciso de dinheiro, dona Gaita, por favor, é um caso de vida ou de morte — suplicou Patins
— Não, não me convence a dar-lhe o dinheiro — respondeu Dona Gaita — além disso, mesmo que quisesse não podia. Só amanhã.
Os planos de Patins foram assim alterados. Sem dinheiro para despesas, e com 423 quilómetros por receber (423 x 48$00 = 20.304$00), o máximo que podia fazer era ir para a 34 de Julho e esperar. Talvez, com um pouco de sorte, descobrisse as provas contra os dois assassinos: Fermento e Cantos.
— Espera aí — pensou Patins — o caso é mais complicado do que eu pensava. Afinal, são três os assassinos. A Lapela vai ter com o Fermento que, por sua vez, combinou encontrar-se com a Cantos. Que raiva! E eu sem dinheiro para despesas... Já sei. Vou falar com o patrão.
Teresa Rainhas ficou espantada com a euforia de Patins.
— É muito urgente eu falar com ele, Rainhas. É um caso de vida ou de morte.
— Mas Patins, já lhe disse: o patrão não está cá. Se quiser falar com ele tem que ligar para o Vagamar.
Patins decidiu então recorrer às editoras, Isabel Riachos ou Paula Rodízio. Obteve de Alexandra Lebre a mesma resposta: também estavam no Vagamar. Como última hipótese foi falar com Manuel da Uva, mas o resultado foi idêntico. Estava no Algrave. O caso era mesmo grave.
O seu espírito detectivesto começou então a funcionar.
— Os quatro no Vagamar. Estranho. Que pena (não há linhas) não poder investigar este complôt agora. Talvez o caso ficasse já resolvido.
No entanto, registou esse facto na memória — que já não é o que era. Tinha de ir a Cacavelos para o poder comprar (ao fato, claro).
Lapela, Fermento e Sacaniggia encontraram-se no Alcântara-Marte, como tinham combinado.
— Dulce, tal como te prometi, aqui está o homem — disse Fermento.
— Ó Nuno, e ele traz as prendas?
— Claro. Ele não falha. Claudio vai buscá-las.
Sacaniggia foi ao carro e voltou com um saco enorme.
— Ena, tanta coisa — afirmou Lapela, eufórica — este gajo é o máximo! Dois porta-chaves e uma bandeira da Argentina. O Don Sal vai adorar.
— Dulce, não te esqueças do que prometeste — lembrou Nuno.
— Claro, claro. A história do acidente não vai ser publicada. Está descansado. Até era mau para a revista ver um seu jornalista envolvido num escândalo. E, além disso, a tua namorada não ia gostar.
— Nem imaginas. A Bolita matava-me. Ou, se calhar, até não. Ela sabe que trabalho... é trabalho — suspirou Fermento.
— Mas ela não se chama Isabel? — perguntou Lapela.
— Sim, mas Bolita é o nome familiar — esclareceu Nuno.
Com esta explicação, Dulce Lapela achou que já não era preciso ficar ali mais tempo. E até porque tinha um convite para uma festa no Vagamar.
— Bem, Nuno, tenho que me ir embora. O meu marido está à minha espera para irmos para o Algrave. Fui convidada para um festa no Vagamar e tenho de preparar tudo para a transmissão desse acontecimento na televisão por cabo.
— Festa?! Festa de quê? E quando? — perguntou Fermento.
— É amanhã, o patrão vai inaugurar a 18º piscina. É um espanto... Vai estar lá toda a gente.
Escondido atrás de um carro, Patins assistiu, ouviu e gravou a conversa toda. Na sua mente não havia qualquer dúvida: o caso era mais complicado do que ele pensava. Como iria resolver este dilema?
— Como é que eu não pensei nisto antes? É claro como água do Tuso. Quem cometeu aquele crime é, de facto, uma pessoa muito esperta — pensou Patins — quer que eu pense que são vários, mas não é assim. Fez tudo sem a ajuda de ninguém. E eu já sei quem é. E, finalmente, tenho as provas!
Que eram, nada mais nada menos, fotos, gravações, depoimentos, documentos, impressões digitais, uma testemunha e... os slides desaparecidos. O caso estava encerrado. Patins só tinha agora de fazer chegar os relatórios finais a quem de direito. Mas agora não era possível. A eleição da Miss Raia era já na próxima sexta-feira e o patrão, que estava no Algrave, só regressaria a Lisboa na véspera do concurso. E falar com ele nessa altura seria demasiado arriscado. É que, a Patins, não faltava senão confirmar toda a sua teoria com a confissão da pessoa que cometeu o crime...
Há alguns séculos, as guerras eram interrompidas nalguns dias santos. Da mesma forma, toda a investigação parou numa altura crucial para a vida da Empada: a eleição da Miss Raia. Uma festa anual, em que as candidatas a rainhas de beleza eram escolhidas entre as mais belas peixeiras do País. Em cada uma das eliminatórias, realizadas nas praças ou nas feiras, escolhia-se uma finalista e, depois, as 16 vencedoras desfilavam na final, realizada no Casino do Caril no dia 11 de Abril — rima e é verdade.
Era um dia aguardado com grande expectativa, e não só por quantos trabalhavam na Empada. Toda a redacção da Nova Mente tinha a oportunidade de, com o argumento de ir trabalhar, tirar a barriga de miséria na (nova) cosmopolita sala de espectáculos dos arredores de Lisboa. Mas em boa verdade se diga que, nessa noite, o trabalho não faltava. Muita gente da sociedade fazia parte da lista de convidados e, se bem que na sua maior parte enviassem os jardineiros, os motoristas e os mordomos, havia sempre duas ou três vedetas que, não gostando do jantar que tinham em casa, faziam das tripas coração e ia até ao casino abrilhantar esta gala.
Logo de manhã notava-se um clima diferente do habitual. O patrão estava muito bem (dis)posto, conversando com todos os empregados que com ele se cruzavam no corredor. Os chefes de redacção de todas as revistas tinham tirado os fatos da naftalina e o cheiro desta, misturado com o da água de colónia que tinham posto para disfarçar, tornava a atmosfera quase nauseabunda, razão pela qual só quem sofria de sinusite conseguia respirar à vontade.
Em todos os cantos as conversas eram semelhantes. “Ainda não sei o que é que vou levar vestido...” ou “comprei um fato espectacular na Maduque...”. Em termos de trabalho efectivo o dia foi quase nulo mas, para variar, ninguém se queixou. Foi um dia de tréguas, a bem dizer. O clima só aqueceu um pouco quando o senhor Patins pediu uma audiência ao patrão.
— Patrão, gostava de ter um convite para à festa... — pediu o detective.
Evitando agitar-se muito, para não estragar o penteado novo, o patrão começou a rir.
— Estou a falar a sério — continuou Patins.
— Não acredito! Você acha que eu me vou arriscar a tê-lo numa festa cheia de gente fina? E, já agora, em que mesa é que se queria sentar? Com a Margarida Bianco e o Manuel Adamado? Ou preferia com o Pinto Calçadão e com a Pipa? Não, já sei, vou pô-lo entre a Dadinha Tinteiro da Ronha e a Gunilla Von Bistrak.
Corado por tanta humilhação, o pobre Patins tentava argumentar.
— Acho que podia ser importante. Falta pouco para concluir as minhas investigações. Sabe, pode ser que o culpado beba demais e se descaia ao pé de mim. É que só me falta a confissão...
— O mais provável é ser você a beber demais e a descair-se, Patins. Ou a cair-se, o que seria ainda pior! A sua ida está fora de hipótese. Quando muito, vá lá no fim buscar os restos. Se a Empada está a pagar, é melhor que aproveitemos tudo o que pudermos...
— Isso já não é mau, patrão.
Como se não o tivesse ouvido, o patrão continuou.
— ... Depois pegue em tudo e traga para aqui, porque deve haver coisas que podemos aproveitar para Os Segredos da Casinha.
E mais não se disse. O patrão pegou nos papéis que tinha na secretária, um sinal inequívoco de que não havia mais nada para discutir. Muito triste, Patins abandonou o gabinete. Caminhando de cabeça baixa, quase chocava com Júlia.
— Então, Patins, o que é que se passa? Para que é esse ar tão triste? — perguntou a jornalista.
— É que o patrão não me deixa ir à festa, logo à noite...
— Oh! Que pena. Eu dizia-lhe para ir comigo, só que, infelizmente, o meu convite só dá para uma pessoa.
O dia foi, portanto, muito triste para Patins. Cada conversa de corredor, cada pessoa bem vestida, tudo se tornava numa verdadeira facada no coração do pobre homem, que se sentia injustamente marginalizado. O seu low prophile estava mais low do que prophile!
À noite, no casino, ninguém estava satisfeito. Os convidados achavam que estava demasiado calor, o patrão achava que estava demasiada gente e os jornalistas tinham sido colocados em péssimos lugares, de onde só viam uma pequena parte do palco e, mesmo assim, tinham de se desviar de uma enorme coluna que lhes tapava a visão. O som, ainda por cima, era tão mau que a voz do Pedro Abrunheira mais parecia a da Geninha Meto e Casco!
Mas, finalmente, lá se chegou ao momento alto do espectáculo: a fase final da eleição. O júri tinha escolhido as três melhores das 16 candidatas iniciais, faltando saber quem seria a Miss Raia e as respectivas Damas de Horror. Júlio Isildo, o apresentador contratado para tão importante evento, falava sobre as três finalistas.
— “Adosinda, Miss Praça da Ribeira, tem 39 anos, um metro e 55 de altura e 84 quilos. Gosta de ver novelas e o seu desporto favorito é a sueca. Está a fazer a «quarta classe à noite e sonha ser veterinária. Adora apregoar chicharro mas o seu peixe preferido é a chaputa. Adosinda desfila com um bonito vestido de Ivo São Lourenço, em tons de verde com aplicações a imitar escamas”.
E Adosinda desfilava, debaixo dos aplausos da multidão em delírio.
— “Teodósia, Miss Mercado de Espinho, tem 55 anos, um metro e 78 de altura e 102 quilos. Prefere ouvir rádio a ver televisão e gosta muito de bisca lambida. Não sabe ler nem escrever mas delira com as matemáticas, sendo a mais rápida das suas colegas a fazer contas de somar e de subtrair. Queria casar com um príncipe encantado mas, enquanto espera, namora com um vendedor de alguidares. O seu peixe favorito é o jaquinzinho. Desfila com um vestido negro, com saia aberta a imitar o rabo do tamboril, magnificamente desenhado por Ana Sá Lazar”.
Seguia-se o desfile de Teodósia, que tinha no casino uma enorme claque.
— “Finalmente, a derradeira finalista. Etelvina, que tem 29 anos, um metro e 60 e 43 quilos. A sua elegância é realçada pelo vestido desenhado por Krina, em tons de verde e vermelho com as quinas na região do umbigo. A Etelvina é a Miss Praça da Cedofeita e vende, habitualmente cação e atum. Estudou até à terceira classe, mas sonha voltar às aulas para fazer um curso de gestão hoteleira. À noite faz cestas em verga mas também gosta de, de vez em quando, jogar dominó na tasca do marido”.
E Etelvina foi a última candidata a desfilar. A seguir foi a eleição, com Júlio Isildo a anunciar Etelvina como Segunda Dama de Horror, Teodósia como Primeira Dama de Horror e... Adosinda como Miss Raia 1994! Houve aplausos e apupos mas, afinal, tudo correu em bem. A vencedora saía, pouco depois, do Casino do Caril, conduzindo orgulhosa a furgoneta que fora o seu prémio, bem como um curso de Corte e Costura oferecido pelas Irmãzinhas da Misericórdia.
A noite aproximava-se do fim. Os jornalistas da Nova Mente, desgraçados, ainda tinham que ir à Empada escrever os textos, que eram para sair já na edição seguinte. Mas, nos intervalos, trocavam opiniões sobre o que tinha acabado de acontecer.
— Uma prima minha, que é vizinha da cunhada do director da Praça da Figueira, disse-me que já se sabia que ia ser a Adosinda a ganhar. Parece que ela faz grandes descontos quando vende para os Segredos da Casinha, pelo que o júri teve de a tratar bem — dizia Rogério Pau.
— Não acredito. Por mim, acho que ela merecia mesmo ganhar. Viste bem o peito dela quando gritou “Olha a chaputa!”? — retorquiu Nuno Fermento.
Lurdes Posta, entretanto, falava sobre as pessoas da society.
— Vocês repararam no mordomo do Belmiro de Azevinho? Trazia o mesmo fato do ano passado. Ainda por cima tinha os sapatos mal engraxados...
Também Lúcia Doer-te tinha estado atenta às roupagens.
— Mesmo assim não estava tão mal como a governanta da Manelinha Champal e Môt. Aquele vestido era p'raí dois números abaixo e salientava-lhe o traseiro. Não me admirei nada de ver o motorista dos Espírito Farto de cabeça perdida por ela!
Para dar apoio moral, também Frederico Colarinho tinha ido até à Empada. E nada do que acontecera no casino lhe tinha passado em claro...
— De cabeça perdida e não só! Não viste que eles saíram juntos no Ford Capri RS 3.o dele? Ali deve haver libertinagem.
Decorria esta conversa quando Patins entrou para trazer as sobras. Ao ver o ajuntamento pensou para com os seus botões (ou fechos éclair...): “Não me admirava nada que o assassino estivesse naquele grupo. Quem me dera poder ler pensamentos como o David Cop... Cup... como o David qualquer coisa. A esta hora já tinha descoberto tudo e o patrão estava satisfeitíssimo comigo. Assim, lá tenho de andar a transportar restos e a fazer de detective nas horas vagas. Há mesmo gajos que nasceram para sofrer!”.
Patins suava, enquanto aguardava que Teresa Rainhas o chamasse para entrar no gabinete do patrão. Sentia-se como se fosse enfrentar Torquemada ou qualquer outro inquisidor. De facto, entrar naquela sala não era agradável para ninguém, por muito bem que se conhecesse o proprietário da Empada.
O tempo de espera foi aproveitado para se convencer de que tudo iria correr bem. “Eu fiz o que ele pediu, portanto não vou ter problemas. Se calhar até vou ser promovido. Se calhar aumentado. Se calhar... dá-me uma mota nova! Uma GSXR...!”. O sonho foi interrompido pela chegada de Teresa Rainhas.
— Senhor Patins, pode entrar.
Suores frios invadiram-lhe a testa enquanto se aproximava da porta. Bateu de forma quase inaudível.
— Dá-me licença? — murmurou.
O patrão não ouviu. Patins pigarreou e falou mais alto.
— Dá-me licença? — mas a voz saiu-lhe demasiado alta e o patrão deu um salto na cadeira, fechando a Tisão numa gaveta.
— Porra, Patins! Detesto que me gritem aos ouvidos. O que é que quer, afinal?
— Vinha apresentar-lhe o relatório da investigação...
— Investigação? De quê?
— Não se lembra? Do crime...
— Crime... crime... Ah!, já sei, aquele da telenovela! Passe-o à Anabela Courinho.
— Não, não é esse, patrão. Aquele da rapariga da agência.
— O quê? Ainda não está resolvido?
— Está, mas falta um pequeno detalhe.
— Estou rodeado de incompetentes. Mas para que é que vocês servem, não me dirá? Se não sou eu a fazer as coisas, nada avança, nada se resolve! Mas dê-me lá o relatório...
Patins passou-lhe para as mãos algumas folhas de papel A4 em que se viam nódoas de chouriço e de óleo lubrificante. Leu na diagonal, só tendo em atenção as partes mais importantes:
Frederico Colarinho: O halibi perfeito que tinha era falso e parece que, afinal, não estava no jantar que disse, mas não atendia o telefone (para variar...).
— Patins, quem sou eu?
— O senhor, patrão? O senhor é... o patrão!
— Pois, bem me parecia. Nesse caso, aqui quem faz os comentários irónicos sou eu! Além disso, isto tem erros de ortografia...
— É natural, patrão, como os meus dedos são grossos, às vezes bato em duas teclas ao mesmo tempo...
— Está bem, está bem.
Continuou a ler.
Lurdes Posta: Grandes dificuldades financeiras que a levam a arrumar caros durante a noite para ganhar dinheiro, que gasta em vestidos carros.
— Que grande confusão!
— O quê, patrão?
— Arruma caros para comprar vestidos carros?
— Pois, eu queria dizer o contrário.
— O quê, que arruma vestidos para comprar carros caros?
— Não, que arruma carros para comprar vestidos caros...
— Então porque é que não disse logo?
Lúcia Doer-te: Trabalha de noite numa casa de hamburgers, estando a juntar dinheiro para trazer a família para Portugal.
— E as viagens são assim tão caras?
— Não. Só que ela tem 24 irmãos, todos casados, e 59 sobrinhos...
— Ah!
Conceição Carrinho: É correspondente de um jornal alentejano em Queluz, fazendo a coluna social consoante aquilo que a Nova Mente publica.
— É ela, cheira-me. Isto é tudo espionagem industrial!
— Mas ela tem um ar tão inofensivo...
— Pois, pois, mas essas são as piores. Quase nem vale a pena ler mais nada, mas...
Nuno Fermento: Aproveita os seus contactos para funcionar como empresário de jogadores de futebol. Um dos seus clientes é o argentino Sacaniggia, cujos antecedentes ligados à cocaína dão para desconfiar. Ainda por cima, gasta muito dinheiro no casino.
— Deve ser este.
— Porquê, patrão?
— Porque o Sacaniggia é do Benfica! Estes gajos do Benfica são todos um perigo. Deviam ir todos de cana!
Sundays Cross: Utilizou todas as economias para adquirir uma carrinha com que vai vender para a feira de Carcavelos, todas as quintas-feiras. Tem problemas financeiros.
— Então é isto que ela vai fazer durante as horas de expediente!
— Mas isso não tem nada que ver com o crime...
— Pois não, é muito mais importante! Julga que é agradável andar a ser roubado?
Rogério Pau: É professor de dança nos Alunos de Apolilon, onde trabalha todas as noites. Ao fim de semana participa em concursos de dança de salão, tentando ganhar dinheiro para sustentar os três cães entravados que vivem com ele.
— Bailarino... Dá para desconfiar. Sempre ouvi dizer que “homem bailarino ou velhaco ou pequenino”. E ele não é baixo...
— Patrão, não é “homem pequenino, ou velhaco ou bailarino”?
— Está a corrigir-me, Patins?! — perguntou o patrão, com ar ameaçador.
— Não, não, de maneira nenhuma!
Isabel Marmelo: Nas horas de ponta é revisora da CP na linha de Sintra. Mas já a vi deixar-se corromper, cobrando uma multa mais pequena e não dando recibo. Parece possuir um espírito tortuoso.
— Não, não me parece que tenha sido esta.
— A mim também não, patrão...
— Alguém lhe perguntou alguma coisa?!
Beatriz Andor: É motorista de táxi no horário nocturno e, por isso, passa as manhãs cheia de sono. Está com problemas porque noutro dia atropelou um Schnauzer Anão quando escorregou da almofada que lhe permite chegar ao volante, tendo a dona pedido uma indemnização de mil contos.
— A dona de quê?
— Do cão, patrão.
— Ah! É que podia ser da almofada. Ou do táxi.
— Mas não é...
— Patins, já lhe disse demasiadas vezes: não me desminta!
Dulce Lapela: Trabalha para a empresa que está a introduzir a televisão por cabo em Portugal como assessora de imprensa. Ganha muito bem, mas segundo o seu psiquiatra tem uma fixação em cabeças coroadas.
— Não foi ela.
— Porquê, patrão?
— Porque se lhe apetecesse matar alguém tinha morto aquele árbitro, o Jorge Coroado, e não uma desgraçada que trabalhava para uma agência.
— Claro, patrão.
— Não esteja sempre a concordar comigo. Detesto que me façam isso!
Júlia Cantos: Ao longo de todo este caso, assumiu-se como a minha melhor fonte de informação, mas descobri que ela é um travesti.
— Um travesti?!
— Sim. Lembra-se daquele actor americano que morreu há uns meses, chamado Raul Julia?
— Lembro-me.
— Pois não morreu. Veio para Portugal, depois de ter recebido o seguro de vida, e instalou-se na Nova Mente, trabalhando com o pseudónimo de Júlia Cantos.
— Ouça lá, Patins, eu sei bem distinguir um homem de uma mulher e essa Júlia é uma mulher.
— Mas, patrão, o Raul não morreu.
— Não seja idiota. Adiante. O seu relatório está razoável, mas não diz quem é que cometeu o crime... Afinal, quem foi?
— Bem, a pessoa que cometeu o crime foi bastante esperta. Conseguiu enganar-me durante muito tempo, mas eu desvendei tudo e tenho provas.
Dito isto, Patins abriu a mala e retirou os slides desaparecidos de Tiana.
Foi este o instante escolhido por Teresa Rainhas para entrar no gabinete.
— Patrão, patrão, uma notícia muito importante! — disse ela, quase sem fôlego.
O patrão leu o papel que ela trazia e que afirmava que a revista espanhola Cola! tinha sido condenada a pagar uma indemnização de dez milhões de contos por ter publicado fotografias e entrevistas falsas da Princesa Tiana. As mesmas a que a Nova Mente tinha perdido por tão pouco!
— Safámo-nos de boa. Afinal, quem matou a rapariga e roubou o material acabou por fazer-nos um favor. Se tivéssemos publicado o trabalho, a esta hora estávamos falidos. Patins, você tem que destruir essas provas. Teresa, mande um fax à Polícia Judiciária dizendo que não houve crime, mas uma avaria já remediada da máquina do café. Não quero que uma pessoa que salvou a Empada seja castigada.
Teresa Rainhas e o senhor Patins preparavam-se para abandonar o gabinete quando a voz do patrão os interrompeu.
— Espere aí, Patins. Em função de tudo o que se passou, acho que não tenho outra alternativa senão mandá-lo falar com o doutor Teixeira Cancro.
Patins ficou branco, verde e tinto. Afinal, iria ser despedido. O patrão acrescentou:
— Diga-lhe que ele está despedido e você passará a ocupar o lugar dele.
Mais satisfeito, Patins deixou o gabinete do patrão e dirigia-se agora para o Monte Kabraão. Mas, no entanto, não estava completamente satisfeito. Afinal de contas, sabia quem era o autor do crime, tinha as provas e estava impedido de o dizer a quem quer que fosse.
Patins estava tão absorvido pelos seus pensamentos, que ao passar pela sala 10 nem reparou no corpo de uma rapariga totalmente esfaqueado. Estava morta!
— Teresa Rainhas, chame-me o Patins imediatamente.
THE END Nota: ESTA HISTÓRIA É UM PRODUTO DE FICÇÃO. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS, EMPRESAS OU FACTOS REAIS SERÁ SEMPRE PURA COINCIDÊNCIA.
BASF — por ter cedido gentilmente as diskettes (3.5”) necessárias para a conclusão do nosso “livro”
City Desk — por gentilmente ter cedido os meios informáticos necessários para o nosso “livro” ser concluído
Redacção da NOVA GENTE — pelo apoio moral prestado ao longo dos trinta dias em que realizámos este inesquecível best-seller (sem falsas modéstias...)
Agradecemos igualmente a todos os que compartilham a nossa opinião sobre a qualidade do “livro”.
Benfiquistas, timorenses, angolanos, moçambicanos, caboverdianos, norte-americanos, comunistas, socialistas, democratas, republicanos, Dulce Varela, Domingas Cruz, Maria Carvalho Costa, Lúcia Duarte, Júlia Santos, Isabel Melo, Conceição Carrilho, Beatriz André, Senhor Martins, Isabel Ribeiro, Manuel Parreira, Paula Rodrigues, Alexandra Coelho, Carlos Correia, Luís Tavares, Ana Bela Mourinho, Bernardo Brito e Cunha, Alberto Florindo, Frederico Aguiar, Luís de Freitas, Eduardo Leão Maia, Carla Graça, Filipe Viana, Dona Aida, Dores, Maria de Lurdes Godinho, Rui Bravo, Sílvia Bastos, Paula Simões, Leonor Macedo, Regina Contumélias, Helena Sequeira, Marco Concha, Pedro Lamy, Pedro Abrunhosa, Cindy Crawford, Catarina Furtado, Freddy Krueger, Alexandra Lencastre, Alexandre Bordalo, Paulo Futre, Claudio Caniggia, Manuela Moura Guedes, Boris Ieltsin, Freddy Mercurie, Padre Frederico, General Lemos Ferreira, Fernando Nogueira, Santana Lopes, Vicente Jorge Silva, José Saramago, Bimbaca (é um gajo lá da nossa rua), Scott (é o cão do Nuno, aquele que o mordeu), Robert A. Heinlein, Miguel Esteves Cardoso, Júlia Pinheiro, O Fiel Inimigo, Pai Natal, menino Jesus, o exorcista, os três reis magos, Akita Morita (ex-presidente da Sony), Angel Pui Peng e, entre muitos outros, Bill Gates (sem ele este livro não seria possível). Uma palavra especial para Cavaco Silva, pelas facilidades que nos podia ter dado...
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