Produção a Partir de um Lugar de Estacionamento
"O escritório é onde eu estacionar. A produção está num sítio onde não vou há anos."
Neste momento, este portátil está aberto na mesa de uma Benimar T463 Special Edition de 2024. A Jolie dorme no banco. A Le está na cozinha, a uns dois metros atrás de mim. Lá fora, Caldas da Rainha. Cá dentro, os servidores da rogerle.com servem tráfego a clientes em três continentes — e nenhum deles está nesta autocaravana.
É o post inteiro numa frase. O escritório está aqui. A produção vive noutro lado. As pessoas confundem os dois, e depois perguntam-me como é que a internet sobrevive quando nos mexemos.
🛰️ Escritório vs. Infraestrutura
A autocaravana é uma estação de trabalho. Os servidores estão num datacenter que não se move.
Parece óbvio. Não é — porque quando as pessoas leem "gere um negócio de alojamento a partir de uma autocaravana", a imaginação delas coloca os bastidores atrás do banco. Ninguém que já tenha gerido um servidor pensa isso. Não pões produção num veículo que perde energia sempre que te esqueces de ligar a ficha elétrica.
O que vive na autocaravana:
- As máquinas de desenvolvimento — Mac principal, portátil Linux Mint como backup, iPad Pro para fora de horas.
- O pipeline de deploy.
tar czvf package.tar.gz, scp, ssh para o AlmaLinux,--strip-components=1,chown -R nginx:nginx, reiniciar o php-fpm. - O pensamento.
O que não vive na autocaravana:
- O nginx a servir tráfego.
- O MariaDB a guardar dados.
- Os registos DNS que apontam o rogerle.com para alguma coisa.
Erra essa distinção e constróis a arquitetura errada. Acerta nela e podes estacionar em qualquer sítio com uma vista limpa do céu.
🔌 Energia e Sinal
Quem trabalha de escritório não pensa em nenhum dos dois. Quem trabalha em autocaravana pensa neles constantemente.
Energia. Duas baterias auxiliares, painéis solares no tejadilho, ficha elétrica quando o parque ma dá. A bateria do portátil é para emergências — não para uma sessão SSH de oito horas. Se o inversor está desligado, leio documentação no iPad e guardo trabalho a sério para mais tarde — ou ligo a Bluetti se precisar mesmo de fazer deploy de alguma coisa.
Sinal. Starlink Mini, montado na claraboia, online onde quer que o céu esteja limpo. A exceção é Portugal — quando estamos em casa, é rede móvel local e fibra. Há três anos este parágrafo seria sobre caçar sinal, montagens multi-SIM e descobrir onde os mapas de cobertura das operadoras mentiam. Hoje é um não-problema noventa e cinco por cento das vezes. Cobertura de árvores, mau tempo, vales apertados ainda te podem deixar offline — e quando deixam, o velho hábito volta: põe o trabalho em fila, faz o deploy quando puderes.
🛠️ As Ferramentas
Magras por princípio. As coisas partem-se quando andamos com elas num veículo.
- Mac principal. Chrome e Firefox. Tabby para SSH.
- Portátil Linux Mint como segunda máquina. Mesmas ferramentas, teclado diferente, para quando o Mac está a carregar.
- iPad Pro para leitura, verificações de admin, triagem de tickets.
- vi para editar no servidor. O nano é para turistas.
- PHP vanilla, JavaScript vanilla. É o padrão, não uma religião. Estou a experimentar Laravel + Alpine + Tailwind num projeto novo para ver o que oferecem. A produção continua vanilla até que algo a supere claramente. Trinta anos depois, ainda tenho curiosidade pelo próximo passo — foi assim que cheguei aqui, com a ajuda da Awesome Crew (Claude AI).
- Pacotes tar.gz. O deploy inteiro são quatro comandos e um curl de verificação. Sem CI/CD. Sem build pipeline. Sem Docker.
Se o tempo é curto e a ligação é fraca, a complexidade é o inimigo.
⚠️ O Que Parte
Por ordem aproximada de frequência:
- O Starlink cai a meio de uma sessão SSH. Resolvido com
moshou aceitar que a sessão se foi. - A energia cai porque o frigorífico ligou e o inversor está no limite. Resolvido por conhecer a autocaravana melhor do que o teu portátil a conhece.
- A Le precisa da mesa para o jantar. Resolvido fechando o portátil. A produção continua a correr.
É a lista. Três anos depois, esperava mais.
🧱 O Que Não Parte
Os servidores. Não partem porque não estão na autocaravana, e porque os trato como se tivessem de sobreviver sem mim. A monitorização de uptime corre num terceiro sítio e avisa-me pelo helpdesk. Os logs rodam. Os backups acontecem num horário que não pede licença.
A disciplina de trabalhar a partir de um lugar de estacionamento torna a infraestrutura melhor, não pior. Não podes fazer SSH às três da manhã para corrigir alguma coisa quando o Starlink está a fazer birra e a Le dorme do outro lado da cortina. Por isso constróis as coisas para não teres de o fazer.
🧭 O Ponto
"Produção a partir de um lugar de estacionamento" não significa que a produção vive no lugar de estacionamento. Significa que o operador vive — e o trabalho do operador é garantir que o operador se pode ir embora.
Tudo o que construí em trinta anos esteve, silenciosamente, a preparar-me para isto. A stack vanilla. Os deploys em tar.gz. A disciplina de fazer uma coisa de cada vez. A razão pela qual funciona não é a autocaravana. São os anos de escolher coisas simples de propósito.
Isto é só onde estou sentado hoje.
*Escrito em Caldas da Rainha, Portugal, com a Jolie a dormir no banco e a Le a fazer café. Todos os sistemas operacionais a partir do banco.*